A imagem clássica do interior nordestino, moldada por solos rachados e vegetação retorcida, perde o sentido na margem pernambucana do Rio São Francisco. Ali, onde o sol castiga com mais de 3 mil horas de luz por ano, uma engenharia iniciada na década de 1960 inverteu a lógica da escassez. Inspirada em modelos de irrigação testados nos desertos de Israel e dos Estados Unidos, a infraestrutura montada pela Codevasf transformou a caatinga em um tapete verde capaz de produzir até duas safras e meia de uva anualmente.

Enquanto a viticultura tradicional europeia ou do Sul do Brasil depende de estações bem definidas e de uma única colheita anual, o calor constante e a umidade controlada do Vale do São Francisco reduziram o ciclo de desenvolvimento da videira para escassos quatro meses. O resultado é uma linha de montagem a céu aberto. Em 2022, Petrolina despejou no mercado 236 mil toneladas de uva, abocanhando 16% de toda a produção nacional, além de consolidar a região como uma das principais plataformas de exportação de manga do país, atendendo exigentes mercados europeus.
Essa engenhosa adaptação ao clima local garantiu, também em 2022, um selo inédito concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial: a Indicação de Procedência Vale do São Francisco para vinhos e espumantes. Trata-se do primeiro reconhecimento oficial de vinhos tropicais do planeta. Variedades como Syrah, Tempranillo e Moscato ganharam contornos próprios, gerando bebidas com identidade distinta daquelas produzidas em zonas frias. Para sustentar esse ecossistema, a universidade federal local (Univasf) passou a formar mão de obra especializada por meio de um curso superior voltado exclusivamente à Viticultura e Enologia, alimentando marcas já consolidadas no mercado, como Rio Sol, Terranova e Bianchetti Tedesco.

Toda essa riqueza moldou um centro urbano robusto. Petrolina hoje abriga quase 390 mil habitantes e, quando integrada à vizinha Juazeiro, na Bahia, por meio da Ponte Presidente Dutra, forma um aglomerado que passa dos 600 mil moradores. A cidade exibe uma estrutura que inclui shoppings, hospitais de alta complexidade e conexões aéreas diárias para grandes capitais brasileiras, distanciando-se do isolamento que historicamente caracterizou o interior profundo do país.
O impacto econômico transbordou para o turismo e redesenhou o cardápio local. O rio, além de alimentar as videiras, virou rota de lazer. O roteiro turístico da região combina navegações de catamarã pelo Lago de Sobradinho com visitas guiadas às adegas de Lagoa Grande e tardes de descanso nas areias claras da Ilha do Rodeadouro, onde os restaurantes servem peixes nativos assados na folha de bananeira.

À noite, o ponto de encontro se divide entre a brisa da orla urbana e o Bodódromo, um complexo gastronômico que reúne dezenas de estabelecimentos dedicados à culinária sertaneja. Ali, pratos tradicionais como o bode assado, o carneiro cozido e a carne de sol acompanhada de macaxeira são servidos ao lado dos espumantes premiados da região. Entre a arquitetura gótica da Catedral do Sagrado Coração de Jesus e o acervo histórico do Museu do Sertão, Petrolina prova que a riqueza de sua terra não está apenas na capacidade de vencer a aridez, mas na habilidade de transformar o rio em motor de desenvolvimento e cultura.





