Imagine que o roteiro mofado de um golpe de Estado não tivesse ficado apenas no ensaio técnico de Brasília. É sob essa premissa de um “e se?” catastrófico que nasce o curta-metragem Vitória Régia, uma obra que faz a transição do documentário tradicional, aquele gênero que todo mundo respeita, mas poucos assistem até o fim, para uma ficção pop com estética de deserto e militarismo. No filme, a tentativa de ruptura democrática de 2023 funciona, resultando no assassinato da cúpula do poder e na ascensão de um regime que decide pagar o apoio logístico dos Estados Unidos com o que o país tem de mais verde: a Amazônia, agora rebatizada com a sutileza de um shopping center de Miami para Amazon of America.
A trama acompanha uma jornalista, vivida por Alice Braga, que circula por uma São Paulo transformada em um híbrido entre a Cracolândia e a Times Square, onde a polícia tem carta branca e o ar carrega o peso de um Blade Runner tupiniquim. Ao viajar para o Norte a convite da corporação que agora “gere” a floresta, ela descobre que o novo modelo de desenvolvimento prometido é, na verdade, um cenário de Mad Max onde o verde deu lugar à terra queimada e ao extrativismo sem freios. É o triunfo da soberania nacional sendo vendida em troca de reconhecimento diplomático internacional, uma ironia que o diretor Cisma (Denis Kamioka) conduz com o sarcasmo de quem observa a realidade e decide dobrar a aposta.
O projeto não é apenas um exercício de pessimismo cinematográfico, mas o braço criativo da campanha “A Resposta Somos Nós”, articulada por organizações indígenas como a Coiab e a Apib. A ideia central é abandonar o tom protocolar das denúncias ambientais para atingir o público pelo estômago, ou melhor, pelo entretenimento de ação. Afinal, se o público médio ignora relatórios de desmatamento, talvez preste atenção quando a destruição ganha trilha sonora e efeitos especiais. O curta conta ainda com nomes como Marina Person e o design de Pedro Inoue, nomes que tentam traduzir o sentimento de urgência de um bioma que, na vida real, já flerta com o ponto de não retorno.
No fim das contas, Vitória Régia opera como um espelho deformado. Enquanto figuras políticas reais sugerem em palanques que o Brasil deveria ser a solução para a dependência americana de recursos chineses, o filme projeta o custo humano e ambiental dessa “parceria”. A produção, já disponível no YouTube, tenta evitar que a arte se torne um documentário antecipado. O objetivo é causar desconforto suficiente para que a plateia prefira manter o enredo restrito às telas, antes que o passaporte para a “Amazon of America” comece a ser carimbado na vida real.





