A justiça e a violência urbana cruzaram-se de forma definitiva na madrugada desta quinta-feira em Catu. Marilio dos Santos, conhecido no submundo como “Maquinista”, encerrou sua trajetória de fuga não em uma cela, mas em um hospital, após resistir a uma abordagem do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Apontado como o mentor intelectual do assassinato da ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete, Maquinista era o último dos cinco acusados que ainda permanecia foragido.
O desfecho ocorreu apenas 48 horas depois de o Tribunal do Júri, no Fórum Ruy Barbosa, sentenciá-lo à revelia a 29 anos e nove meses de reclusão. Segundo os registros oficiais da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, o condenado teria disparado contra as guarnições ao ser localizado, desencadeando um tiroteio que resultou em ferimentos fatais. Com ele, os agentes apreenderam armamento e munições, encerrando um capítulo de buscas que mobilizava as forças de segurança do estado.
O pano de fundo deste crime revela uma colisão entre a preservação cultural e o avanço da criminalidade organizada. Bernadete Pacífico foi executada em agosto de 2023, dentro da associação do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho. As investigações indicam que sua morte foi encomendada devido à sua postura firme contra a expansão do tráfico de drogas na região. Ela lutava especificamente pela remoção de uma estrutura ilegal erguida por Marilio em uma área de preservação, que servia como ponto de comércio de entorpecentes.
Enquanto a defesa de Marilio manifestou surpresa com a celeridade dos eventos após a condenação, outros desdobramentos jurídicos avançam. Arielson da Conceição Santos, identificado como um dos executores, recebeu uma pena ainda mais rigorosa: 40 anos de prisão. Além disso, o caso ganhou contornos políticos com a prisão preventiva do ex-deputado federal Uldurico Junior, suspeito de envolvimento em uma rede que facilitava fugas de custodiados ligados a facções criminosas.
A morte de Maquinista interrompe o processo de responsabilização institucional direta do mandante, mas não apaga a relevância do veredito alcançado nesta semana. Para os movimentos sociais e lideranças do candomblé que acompanharam o julgamento sob forte comoção, a condenação dos envolvidos permanece como um marco na proteção de defensores de direitos humanos e territórios tradicionais na Bahia.





