Herança Hippie: Filhos da contracultura brasileira revisitam infâncias sem regras e com poucos sofás

​Novo documentário de Betão Aguiar joga luz sobre os bastidores da liberdade dos anos 1970 a partir das memórias de quem cresceu entre a vanguarda musical e a ausência de estruturas convencionais.

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​A utopia dos anos 1970 no Brasil costuma ser celebrada pelos acordes revolucionários, pelas roupas coloridas e pelo desbunde em comunidades alternativas. No entanto, os bastidores dessa busca por liberdade absoluta guardam perspectivas pouco exploradas: as das crianças que cresceram nesse cenário. O documentário “Nem tudo é paz e amor”, dirigido pelo músico e cineasta Betão Aguiar, propõe essa inversão de perspectiva ao dar voz aos herdeiros diretos dos principais nomes da contracultura nacional. O longa-metragem faz sua estreia na 18ª edição do In-Edit Brasil, Festival Internacional do Documentário Musical, em São Paulo.

​O projeto nasceu do desejo de Jasmin Pinho, produtora soteropolitana e filha de hippies, falecida em 2020. Betão assumiu a condução do filme para registrar os relatos de sua própria geração. Filho de Paulinho Boca de Cantor, integrante dos Novos Baianos, e de Marília Aguiar, o diretor reuniu um elenco de entrevistados que inclui Moreno Veloso, Nara Gil, Beto Lee, Anelis Assumpção e Areia Duarte. O que emerge desses depoimentos é um mosaico que transita entre o afeto pelas utopias dos pais e o estranhamento com as excentricidades do cotidiano.

​As memórias revelam que romper com as tradições burguesas muitas vezes significava abrir mão de confortos básicos. O sumiço da mobília tradicional nas casas comunitárias rendeu o apelido interno de “geração sem-sofá”. Relatos como o de Maria Meneghini, irmã do diretor, ilustram o radicalismo da época: ela passou os primeiros dois anos de vida sem registro oficial de nome enquanto vivia no sítio dos Novos Baianos, dividindo espaços sem divisórias e sem rotinas alimentares rígidas. Em outro extremo da busca por normalidade, Minom Pinho, irmã de Jasmin, relembra que seu maior desejo aos oito anos de idade era, paradoxalmente, ser “careta”.

Sarah Sheeva, filha de Pepeu Gomes e Baby do Brasil

O documentário não se esquiva das contradições e dos custos emocionais daquele estilo de vida. Um dos pontos mais emblemáticos dessa tensão aparece no depoimento de Sarah Sheeva, filha de Pepeu Gomes e Baby do Brasil. Batizada originalmente como Riroca, ela compartilha os traumas da infância e sua posterior ruptura com o universo dos pais ao se converter e se tornar pastora evangélica. A produção trata essa transição sem julgamentos, destacando como a estrutura religiosa ofereceu o acolhimento e o espaço para o choro que a liberdade irrestrita da comunidade artística muitas vezes negligenciava.

​Apoiado por um vasto material de arquivo e uma trilha sonora que conecta clássicos da época a releituras contemporâneas, o filme evita o tom de denúncia ou de ressentimento. O consenso entre os entrevistados, hoje também adultos e em sua maioria artistas, é o de que os erros cometidos pelos pais faziam parte de uma tentativa genuína de criar um mundo diferente. Como o próprio diretor pontua, os excessos da contracultura coexistiam com os erros ocultos das famílias tradicionais da época, a diferença é que os hippies não tinham o verniz do moralismo para esconder suas falhas.

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