Enquanto tenta encontrar o rumo do equilíbrio financeiro após acumular prejuízos sucessivos, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos enfrenta um novo foco de desgaste, desta vez na esfera criminal. O Ministério Público Federal analisa uma denúncia detalhada que aponta a existência de um suposto esquema de “rachadinha” dentro da estrutura da estatal no Rio de Janeiro. A acusação formal indica que funcionários indicados para cargos de confiança eram compelidos a devolver parte de suas gratificações para assegurar a permanência nas funções.
O caso chegou ao conhecimento das autoridades por meio de um relatório elaborado pelo Sindicato dos Trabalhadores na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro (Sintect-RJ). O documento reúne os depoimentos de 11 testemunhas que relatam pressões internas e exigências financeiras ilegais. Entre os relatos mais contundentes está o de um funcionário veterano, com mais de três décadas de serviços prestados, que ocupava uma função gerencial na Zona Sul fluminense. Segundo o seu testemunho, ao se recusar a pagar a “caixinha” cobrada por um gestor da área, ele acabou destituído do posto que exercia desde 2009.
As investigações buscam esclarecer os bastidores de uma suposta taxa de 15% cobrada sobre os valores complementares dos salários. A denúncia sugere que o recolhimento dos valores ocorria sob a coordenação de lideranças ligadas à Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect), que supostamente possuíam influência na indicação política de cargos comissionados junto à antiga presidência da empresa, então comandada por Fabiano Silva dos Santos.
As evidências apresentadas incluem uma carta escrita à mão detalhando as cobranças e comprovantes de depósitos bancários em nome de terceiros que atuariam como operadores do recolhimento. Conversas em aplicativos de mensagens monitoradas pelo sindicato indicam que grupos virtuais, com nomes como “Gestores Unidos Correios” e “Amigos dos Correios”, eram utilizados para o monitoramento e envio dos comprovantes das transações financeiras. Embora a legislação brasileira não preveja um tipo penal com o nome de “rachadinha”, juristas apontam que a conduta relatada pode ser enquadrada como crime de peculato ou improbidade administrativa.
A repercussão institucional gerou reações imediatas entre os citados. A direção atual dos Correios manifestou-se de forma enfática, declarando que não compactua com condutas ilícitas e assegurando a adoção de medidas legais rigorosas caso as irregularidades sejam formalmente comprovadas. Por sua vez, os ex-dirigentes e representantes sindicais mencionados na representação negaram veementemente qualquer participação no esquema. As defesas alegam que as acusações são infundadas, classificam a denúncia como calúnia e atribuem o movimento a disputas políticas e sindicais internas, ressaltando que o ônus da prova cabe aos denunciantes.
O escândalo vem a público em um momento de extrema fragilidade operacional para a companhia. Entre 2023 e 2025, o período correspondente à gestão anterior, a empresa mergulhou em dificuldades financeiras graves, dependendo de um socorro financeiro de R$ 12 bilhões viabilizado por meio de um pool de bancos com aval da União para fechar o balanço anterior. Para o exercício atual, as projeções indicam a necessidade de um novo aporte na ordem de R$ 7 bilhões, mesmo com a previsão de um saldo final negativo de R$ 10 bilhões nas contas. Em resposta à crise, o governo promoveu uma troca no comando da estatal, nomeando Emmanoel Schmidt Rondon, profissional com longa trajetória no setor bancário, encarregado de executar um severo plano de reestruturação para reverter o cenário deficitário.





