Belchior 80 anos: a poesia que ainda abre feridas e move estruturas na Caixa Cultural

​Com Marisa Orth, Bur e Taciana Barros, espetáculo em Brasília desconstrói o formato tradicional de tributos para focar no poder da palavra do compositor cearense

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​O ano era 2017. O Brasil vivia uma ebulição política e o escritor Jotabê Medeiros lançava a biografia “Apenas um rapaz latino-americano”, poucos meses após a morte de Belchior. O que era para ser apenas uma apresentação protocolar de lançamento de livro transformou-se, pelas mãos da musicista Taciana Barros, em um manifesto estético que ganha o palco da Caixa Cultural, em Brasília, nesta semana.

A turnê “Amar e mudar as coisas, Belchior 80” celebra o octogenário que o compositor completaria se estivesse vivo. No palco, Taciana divide o protagonismo com Marisa Orth e a cantora Bur. A proposta, no entanto, foge do roteiro comum de shows comemorativos de grandes divas. Não há espaço para disputas de ego ou performances centralizadoras.

Para garantir que a obra de Belchior sobressaia, o trio fez escolhas cênicas e arranjos minimalistas. A ausência de instrumentos de grande peso sonoro, como bateria e teclado, limpa o campo auditivo para que a contundência das letras seja o elemento principal. Vestidas com trajes neutros, as artistas funcionam como canais de transmissão de uma herança literária que, segundo o próprio público relata após as sessões, revela nuances antes camufladas pelas gravações originais da década de 1970.

A força do repertório reside na capacidade de Belchior operar como uma espécie de terapeuta social. Suas canções não envelheceram porque lidam com as contradições do cotidiano e com a urgência de transformações estruturais. O impacto na plateia é individualizado: a mesma estrofe que provoca o choro de um espectador por uma frustração política toca o outro por uma angústia pessoal. Há uma universalidade dolorosa em cada rima.

Embora o espetáculo resgate o cancioneiro histórico, o olhar do projeto está fincado no presente. As integrantes recusam o saudosismo fácil de que o passado da MPB era superior à produção contemporânea. O tributo dialoga diretamente com o ecossistema musical atual, que se mostra diverso, povoado por novas compositoras, vozes trans e arranjadores que oxigenam a cena brasileira.
​O título da turnê, extraído da clássica “Alucinação”, funciona como um roteiro prático para o momento em que o espetáculo nasceu, marcado pela ascensão global de discursos de intolerância. Diante do cenário de hostilidade, a escolha das artistas foi resgatar a premissa de que qualquer tentativa de alteração social precisa, obrigatoriamente, ser amparada pelo afeto. É a tese de que, para alterar a realidade, o primeiro passo é a conexão humana.
​A temporada na capital federal segue em cartaz até o próximo domingo, oferecendo ao público a oportunidade de reencontrar um Belchior despido de nostalgia, mas repleto de futuro.

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