O silêncio na sala de defesa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na Universidade de Fortaleza (Unifor), no último dia 9, durou pouco. Deu lugar às lágrimas coletivas quando a educadora aposentada Marivan Ferraro, de 77 anos, subiu ao púlpito para apresentar seu projeto final de Design. Na primeira fileira da plateia, uma espectadora em especial justificava o nervosismo e o orgulho da noite: dona Maria Augusta, de 98 anos, mãe da formanda e coautora intelectual da obra apresentada.
O projeto que garantiu a nota máxima à nova designer é um livro infantil em tecido, inspirado na passagem bíblica da Arca de Noé. Longe de ser apenas um exercício acadêmico, o objeto ganhou vida na mesa de jantar da família, onde mãe e filha passaram semanas desenhando, pesquisando e alinhavando linhas coloridas. A ideia original partiu da quase centenária Maria Augusta, que defende que a literatura para a primeira infância precisa ser tátil, permitindo que os pequenos “leiam com as mãos”.
A trajetória de Marivan na graduação começou de forma despretensiosa em 2022, quando ela acompanhava uma amiga em uma visita ao campus. Ex-professora de Língua Portuguesa da rede pública estadual do Ceará, aposentada desde 2009, ela sentiu o desejo de retornar aos bancos escolares após mais de três décadas longe deles. Prestou o vestibular, alcançou a marca de 980 pontos na avaliação e ignorou o ceticismo bem-humorado dos parentes, que questionavam se ela havia perdido o juízo.
O ambiente universitário, majoritariamente composto por jovens na casa dos 20 anos, funcionou como um motor de renovação para a estudante. Marivan relata que a convivência diária com outras gerações e o domínio de novas ferramentas técnicas permitiram que ela descobrisse habilidades até então adormecidas. Ao final da apresentação do TCC, o protocolo acadêmico foi quebrado para que a formanda entregasse um arranjo de flores artesanais, confeccionado por ela mesma, à mãe.
A autonomia e a busca pelo conhecimento são traços hereditários na família. Dona Maria Augusta mora sozinha, mantém uma rotina de escrita de livros e atua como professora de Hermenêutica Bíblica. Esse histórico de independência feminina moldou a postura com que Marivan enfrentou os desafios do retorno à academia.
O plano da recém-formada agora ultrapassa os muros da universidade. A meta é produzir novos títulos literários em tecido e doá-los para acervos de escolas públicas e bibliotecas comunitárias, focando na estimulação sensorial de crianças em fase de alfabetização. O impacto da apresentação extrapolou os limites institucionais e alcançou repercussão nacional na internet, transformando a colação de grau em um símbolo prático de que a capacidade produtiva e intelectual não se encerra com o avanço do calendário.





