O que antes era restrito a debates jurídicos e importações burocráticas agora ganha escala industrial no Nordeste brasileiro. A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (ABRACE), sediada em João Pessoa, consolidou sua posição como a maior produtora de derivados da planta no Brasil. O salto produtivo mais recente ocorreu em agosto de 2024, com a inauguração de uma infraestrutura laboratorial que multiplicou por dez o potencial de fabricação da entidade. Atualmente, cada lote de produção entrega 5 mil frascos de óleo, um volume expressivo diante das 500 unidades fabricadas anteriormente.
A operação é um exemplo de verticalização produtiva totalmente regional. O cultivo da Cannabis sativa ocorre sob rigoroso controle agronômico entre os municípios de Conde e Campina Grande. É nesta última que se realiza a extração dos princípios ativos, como o THC e o CBD. O estágio final de manipulação farmacêutica acontece na capital, João Pessoa. Com um processamento mensal que chega a duas toneladas de biomassa, a organização consegue atender cerca de 60 mil pacientes em todo o território nacional, com infraestrutura pronta para acolher até 100 mil pessoas.
Para além do impacto na saúde, a iniciativa movimenta a economia local e propõe um modelo de sustentabilidade integral. Com 225 colaboradores diretos, a associação aproveita integralmente o ciclo biológico da planta: enquanto as flores geram o medicamento, os caules são transformados em tijolos para construções na própria fazenda e as folhas são destinadas à compostagem. Esse ciclo se renova a cada seis meses com a atualização das matrizes genéticas, garantindo a padronização necessária para o tratamento de patologias como epilepsia refratária, Alzheimer, Parkinson e autismo.
O reconhecimento do trabalho também atravessou a fronteira institucional e chegou às políticas públicas. Desde março de 2024, uma legislação municipal em João Pessoa assegura o fornecimento gratuito desses produtos via Sistema Único de Saúde (SUS) para a população de baixa renda. A medida valida uma trajetória iniciada em 2017, quando a Abrace obteve a primeira autorização definitiva da Justiça Federal para o cultivo medicinal no país, transformando o estigma em solução terapêutica acessível e consolidando um novo paradigma para a saúde pública brasileira.





