O preço amargo da indicação visual: Como a venda omissa de coces virou caso de polícia e Procon na Expocrato

​Prática de cobrar por gramatura sem estimativa visual gera enxurrada de denúncias por constrangimento; órgão de defesa do consumidor intervém e ameaça interdição de stand mineiro

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​O que era para ser uma experiência gastronômica nostálgica na Exposição Agropecuária do Crato (Expocrato), no Ceará, transformou-se em frustração financeira e constrangimento público para dezenas de visitantes. O alvo das queixas, que ganharam repercussão digital expressiva, é o stand da empresa mineira Doceria Deleites. Consumidores relatam terem sido induzidos a pagar quantias que ultrapassam R$ 300 por fatias de doces tradicionais, sob uma estratégia de vendas que o Ministério Público estadual já classificou como abusiva.

A engenharia do comércio funcionava de maneira simples, mas eficaz na omissão de dados. O estabelecimento fixava cartazes informando o preço de R$ 19,90 para cada 100 gramas. Na hora do atendimento, contudo, o funcionário solicitava que o cliente apontasse visualmente onde deveria ser feito o corte em peças que chegam a pesar 25 quilos. Sem balizas ou referências físicas do que representa aquela pesagem na prática, os compradores só descobriam o valor final após a lâmina cortar o produto.

 

Foi nesse momento que o passeio azedou para o criador digital Wellington Barros. Ele desembolsou R$ 137 por três pedaços de doces variados. Ao notar que o valor superava qualquer expectativa razoável, Barros tentou desistir de parte da compra, mas esbarrou na negativa inflexível dos vendedores. A alegação era de que a mercadoria cortada não poderia ser reaproveitada. Sem dinheiro em espécie e sob forte pressão psicológica na frente de outros clientes, ele acabou parcelando o valor no cartão para encerrar o episódio. Relato semelhante ao do biólogo Márcio Holanda, que pagou R$ 177 em duas fatias após o atendente recusar a devolução em tom jocoso e rimas em voz alta.

O caso saiu da esfera dos desabafos virtuais e mobilizou as autoridades de defesa do consumidor. Agentes do Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon) fiscalizaram o local e confirmaram a falta de clareza na exposição dos preços e a ausência de porções de referência que pudessem nortear o cidadão. De acordo com a promotoria de Justiça local, o formato adotado viola o direito básico à informação transparente. O órgão expediu uma notificação exigindo adequações imediatas na pesagem e na rotulagem dos produtos, sob pena de interdição do espaço antes do encerramento do evento.

A direção da Doceria Deleites se defendeu publicamente rejeitando o rótulo de fraude. A empresa argumentou que adota o modelo de livre escolha em feiras pelo país e que a impossibilidade de devolver o doce cortado atende a normas sanitárias de manipulação de alimentos. A empresa, no entanto, evitou responder diretamente sobre as abordagens agressivas e as táticas de intimidação relatadas pelo público no momento do pagamento. Do ponto de vista legal, as autoridades reforçam que nenhum cidadão pode ser compelido a finalizar uma aquisição quando há vício de informação ou quando o volume final diverge drasticamente do esperado.

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