Uma refeição tradicional de fim de semana transformou-se em um grave caso de emergência médica em Natal, trazendo à tona um risco silencioso que se esconde na culinária litorânea. A internação na UTI de uma idosa de 72 anos, intubada após consumir uma moqueca de cioba, levou a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) a emitir um comunicado epidemiológico urgente. O episódio revela a expansão de uma contaminação severa por ciguatoxina nas águas do estado, registrando um volume de ocorrências que desafia as autoridades sanitárias locais.
A paciente adoeceu após consumir o pescado no final do mês de junho. Dias depois, o agravamento do quadro clínico exigiu intervenção hospitalar intensiva. O episódio não é isolado: apenas nos primeiros sete meses de 2026, o Rio Grande do Norte já contabiliza 148 casos de ciguatera. Desde que o monitoramento sistemático começou a registrar a alta recente, em 2022, o estado acumula 259 notificações e duas mortes provocadas por essa modalidade de envenenamento alimentar.
A ameaça preocupa especialistas devido à sua natureza furtiva. A substância é produzida por microalgas presentes em recifes de corais, que servem de alimento para peixes herbívoros, os quais, por sua vez, são predados por espécies maiores, como a cioba, a barracuda e o mero. Ao longo dessa cadeia, o veneno acumula-se nos tecidos dos animais de grande porte sem alterar o aspecto visual, o cheiro ou o sabor da carne. Além disso, a molécula possui alta estabilidade térmica, o que significa que assar, cozinhar, fritar ou congelar o alimento não elimina o perigo.
Os primeiros sinais costumam surgir poucas horas após a ingestão. Pacientes relatam formigamento nos lábios e extremidades, inversão térmica (sensação de que o frio queima e o quente gela), dores musculares acentuadas, fadiga profunda e distúrbios gastrointestinais. A orientação oficial determina a busca imediata por pronto-socorro ao notar dormência corporal ou dores logo após refeições com peixes marinhos.
A recorrência do problema acende um debate sobre o equilíbrio ambiental marinho e as práticas de pesca na região. Alterações na temperatura dos oceanos e o estresse sobre os ecossistemas de corais favorecem a proliferação das algas nocivas, ampliando a incidência da toxina na fauna marítima. Para os consumidores e a cadeia de restaurantes, resta o desafio de rastrear a procedência dos peixes costeiros, visto que o diagnóstico rápido e o suporte médico precoce continuam sendo as únicas ferramentas eficientes para mitigar as consequências causadas por essa infecção.





