O nerd de barba branca que preferia Homero ao poder

​Enquanto a política brasileira pegava fogo, Dom Pedro II gastava as horas vagas traduzindo grego antigo, financiava mentes brilhantes e fazia sala para invenções que mudariam o mundo.

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​Enquanto Hollywood cobra ingressos caros para projetar a antiga Grécia em telas gigantes, o Brasil já teve um chefe de Estado que fazia esse mesmo trajeto de graça, direto na fonte e sem pipoca. O detalhe irônico é que ele governava o país enquanto fazia isso. Dom Pedro II passou quase cinco décadas no topo da monarquia tropical agindo, no fundo, como um acadêmico que herdou uma coroação por acidente de percurso.

A rotina do palácio no Rio de Janeiro dependia menos de grandes despachos políticos e mais de dicionários abertos sobre a mesa. Entre 1887 e 1890, o imperador dedicou bom tempo à história de Ulisses. Ele lia o original em grego, checava a versão alemã, conferia a francesa e anotava as impressões no diário com o empenho de quem tem uma prova na manhã seguinte. Nem mesmo a proclamação da República, que o colocou em um navio a caminho do exílio em 1889, conseguiu interromper a mania tradutora. O país mudou de regime, mas o caderno de grego continuou na mala.

Traduções eram apenas a ponta do iceberg. Pedro II dominava mais de dez línguas, incluindo o tupi-guarani local e o árabe, e praticava o hábito de colecionar amizades com mentes brilhantes do planeta. Trocou cartas com Louis Pasteur, bancou espetáculos de Richard Wagner e deixou Charles Darwin impressionado a ponto de o cientista declarar público respeito ao monarca brasileiro.

Numa viagem aos Estados Unidos em 1876, fez papel de turista curioso ao testar o recém-inventado telefone de Alexander Graham Bell. Ao escutar a voz do inventor pelo aparelho na Exposição de Filadélfia, soltou o famoso “Meu Deus, isto fala!”, dando ao invento a publicidade involuntária que o mercado precisava. No mesmo giro norte-americano, jantou com intelectuais como Ralph Waldo Emerson e Henry Longfellow. Este último anotou no diário que o brasileiro parecia mais um visitante simples em busca de conversa fiada inteligente do que alguém interessado nos rituais de um trono.

O episódio em Paris, em 1877, mostra bem o estilo do sujeito. Pedro II cismou que queria conhecer Victor Hugo. O autor de Os Miseráveis, no entanto, tinha 75 anos, odiava monarquias e avisou pela embaixada que não fazia visitas a ninguém. Sem se abalar com o fora diplomático, o próprio imperador bateu à porta do escritor republicano. A conversa rendeu tanto que Hugo acabou se rendendo ao visitante, chamando-o de “neto de Marco Aurélio”. Quando a neta de Hugo abraçou o monarca e o avô comentou sobre a honra de abraçar uma majestade, Pedro II apenas apontou para o escritor e retrucou que a única majestade na sala era o dono da casa.

Anos mais tarde, em dezembro de 1891, ele morreria em um quarto de hotel parisiense. Deixou manuscritos espalhados, cadernos de estudo e a tradução da Odisseia pela metade, a saga de um rei tentando voltar para casa que o tradutor, deposto e distante, jamais conseguiu concluir.

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