O descarte invisível nas praias da Ilha de Itamaracá, no litoral norte de Pernambuco, ganhou um destino sem precedentes na construção civil. O que costumava ser abandonado na areia, em manguezais e no mato passou a erguer paredes: 8 mil garrafas de vidro foram resgatadas do ambiente para erguer uma casa funcional de 70 metros quadrados, dividida em sete cômodos.
Batizada de Casa de Sal, a edificação na Praia do Sossego nasceu das mãos da educadora socioambiental Edna Dantas e de sua filha, a designer Maria Gabrielly Dantas. Pressionadas pela urgência de um teto durante a pandemia e incomodadas com o acúmulo de lixo local, as duas decidiram erguer a própria moradia utilizando o vidro como elemento estrutural e estético.

O processo, concluído após dois anos de trabalho braçal e testes práticos, utilizou uma disposição do material pouco comum: em vez de deitar as garrafas, a dupla aplicou os frascos na vertical, em sistema de parede dupla. O encaixe cria um travamento térmico natural, capaz de amenizar o calor litorâneo, além de filtrar a luz do sol de forma colorida ao longo do dia.
O vidro é historicamente rejeitado por redes informais de reciclagem pelo peso e baixo valor comercial no mercado de catadores. Ao retirar quase oito toneladas desse resíduo da natureza, o projeto deu utilidade a um insumo que levaria milênios para se decompor. A estrutura completa inclui ainda madeiras resgatadas, peças doadas por moradores e um sistema próprio de fossa filtrante projetado para irrigação.
O espaço deixou de ser apenas a residência da família e passou a operar como polo de ecoturismo e vivência ambiental, recebendo visitantes interessados em técnicas acessíveis de construção. A iniciativa mostra que a busca por moradia, aliada ao conhecimento técnico e ao reaproveitamento de resíduos, pode criar soluções urbanas seguras e ao mesmo tempo transformar a relação das comunidades com o ambiente costeiro.





