O luxo descalço de Jericoacoara: como o isolamento virou o maior ativo do turismo cearense

​Entre regras rígidas de preservação e a ausência de asfalto, antiga vila de pescadores atrai 1,5 milhão de visitantes mantendo o mesmo chão de areia que a consagrou há décadas.

Compartilhe o Post

​O destino que hoje estampa guias internacionais de viagem começou a ser desenhado no imaginário global bem antes do Instagram. Em 1994, o jornal norte-americano The Washington Post apontava os olhos do mundo para um rincão isolado no litoral do Ceará. Duas décadas depois, em 2014, o Huffington Post repetia o feito. O que esses veículos encontraram foi um lugar que desafiava a lógica urbana tradicional. Hoje, com um fluxo que ultrapassou 1,5 milhão de turistas em 2024, o vilarejo cearense responde à pressão do crescimento com uma receita incomum: impor limites para garantir a própria sobrevivência.

 

A engenharia por trás do sucesso de Jericoacoara baseia-se na restrição. Na contramão do desenvolvimento litorâneo predatório, ali não há asfalto, semáforos ou postes de iluminação pública convencional. A fiação elétrica corre sob o chão e os carros particulares são barrados na entrada. Para vencer os últimos 15 quilômetros de dunas e chegar ao casario, o visitante depende obrigatoriamente de veículos com tração 4×4 ou das tradicionais jardineiras credenciadas.

Essa barreira física, que até os anos 1980 exigia verdadeiras expedições por mar ou caminhadas extenuantes, transformou-se no principal argumento de venda do destino. A mudança de patamar institucional veio em 2002, quando a região ganhou o status de Parque Nacional, transferindo para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a responsabilidade de ordenar o uso do solo e frear o avanço desordenado sobre o ecossistema.

 

O batismo original em tupi já indicava a vocação natural do espaço: “toca das tartarugas”. Embora a infraestrutura hoteleira e gastronômica tenha se sofisticado para atender a um público exigente, a rotina dos viajantes ainda orbita em torno de monumentos esculpidos pelo tempo. A Pedra Furada, moldada pelas ondas, e as águas calmas das lagoas do Paraíso e Azul, famosas pelas redes armadas a poucos centímetros da água, dividem a atenção com a Árvore da Preguiça, cuja copa cresceu deitada sob o impacto das rajadas de vento que sopram constantemente do oceano.

Ao final de cada tarde, um ritual coletivo suspende as atividades da vila. Moradores e turistas sobem a Duna do Pôr do Sol para acompanhar o momento em que o astro toca a linha do horizonte marítimo, um espetáculo visual raro na costa leste brasileira, onde o sol costuma se pôr atrás do continente. É o momento em que o ritmo desacelera por completo. Ao abrir mão das conveniências das grandes metrópoles e obrigar o viajante a caminhar descalço, Jericoacoara inverteu a lógica do mercado: mostrou que, em um mundo cada vez mais conectado e veloz, a verdadeira exclusividade está na capacidade de permanecer simples.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.