Entre 1934 e 1937, o Recife viveu uma transformação estética silenciosa, porém profunda, sob o traço de Roberto Burle Marx. Enquanto ocupava a chefia do Setor de Parques e Jardins do estado, o artista carioca deixou de lado as convenções europeias para estabelecer uma linguagem botânica genuinamente brasileira, utilizando a flora local como elemento estrutural da arquitetura urbana. Esse período, frequentemente eclipsado pela grandiosidade de suas intervenções posteriores no Rio de Janeiro, ganha agora a devida proporção histórica por meio do volume Inventário dos Jardins de Burle Marx no Recife – Jardins Públicos, lançado pela Editora UFPE.

A publicação, fruto do trabalho do Laboratório da Paisagem do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da universidade, funciona como um resgate técnico e sensível de uma época em que o jardim foi elevado à categoria de obra de arte pública. O livro ultrapassa a simples catalogação ao oferecer um mergulho em levantamentos botânicos e análises de projeto, permitindo compreender como Burle Marx pensou a convivência entre o espaço edificado e a vegetação tropical.

O material disponibilizado pela equipe da UFPE documenta não apenas o que permanece visível na paisagem recifense, mas também as intenções originais por trás da escolha de espécies e do desenho dos canteiros. Mais do que um arquivo de memória, o inventário serve como instrumento para o planejamento urbano contemporâneo, convidando gestores e moradores a olharem para praças e alamedas com uma nova consciência sobre a preservação do patrimônio vivo da cidade. A iniciativa estabelece, enfim, uma conexão necessária entre o Recife do início do século 20 e os desafios de manter viva a assinatura de um dos maiores nomes do paisagismo mundial em um ambiente urbano em constante mutação.






