No interior da Paraíba, o debate sobre o futuro dos combustíveis e da eletricidade abandonou a frieza dos relatórios corporativos para se instalar no chão da roça. Em Esperança, município inserido na região do Polo da Borborema, um grupo de 50 estudantes vindo de nove estados brasileiros busca desenhar uma alternativa ao avanço dos megaempreendimentos de energia limpa. Trata-se do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, articulado pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) em parceria com o Instituto Federal da Paraíba (IFPB).

A proposta nasce de um incômodo real enfrentado por populações tradicionais. Embora apresentadas como soluções ecológicas para a crise climática, grandes infraestruturas eólicas e solares têm reproduzido dinâmicas antigas de ocupação territorial no Nordeste brasileiro. A concentração da propriedade dessas usinas em mãos de grupos estrangeiros, que controlam quase 70% dos parques eólicos da região, frequentemente resulta no cercamento de terras, no desmatamento e na pressão sobre comunidades quilombolas e assentamentos rurais.
Para contornar essa lógica, a formação adota a pedagogia da alternância. Os alunos dividem o tempo entre períodos intensivos de imersão teórica e prática no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, com acesso a laboratórios do IFPB, e momentos de aplicação direta nas próprias comunidades. A meta é garantir que o conhecimento técnico sobre regulação, engenharia e instalação de sistemas permaneça no território, servindo como ferramenta de autonomia para quem já produz alimentos e preserva o ecossistema local.
A articulação político-pedagógica do projeto, alinhada a movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), defende que a produção de eletricidade pode ser descentralizada e consorciada com a agroecologia. Em vez de desmatar para cobrir o solo com painéis fotovoltaicos ou erguer dezenas de torres de vento que alteram a rotina local, a aposta está em pequenos sistemas comunitários que abasteçam a própria produção agrícola sem desorganizar a vida comunitária.
A demanda por uma formação desse tipo partiu das próprias organizações populares do Semiárido, historicamente mobilizadas contra os impactos de grandes obras de infraestrutura. Ao unir a vivência no campo ao rigor acadêmico, a primeira turma do curso tenta provar que a virada para uma matriz limpa só será verdadeiramente sustentável se levar em conta as pessoas que habitam o território.





