Virada histórica da Praia da Penha (PB) contra o avanço imobiliário

​Em meio a disputas territoriais com construtoras em João Pessoa, comunidade secular obtém reconhecimento oficial da Fundação Cultural Palmares e ganha novos instrumentos jurídicos de proteção.

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​Nas areias da Praia da Penha, na capital paraibana, a rotina de lançar redes ao mar e observar o fluxo das marés ganhou um novo contorno jurídico e social. O local, conhecido pela tradição pesqueira e pela ocupação centenária, passa a figurar oficialmente no mapa das terras quilombolas do país. A mudança vem chancelada pela Portaria nº 235 da Fundação Cultural Palmares, publicada no Diário Oficial da União no fim de junho de 2026.

 

A certidão emitida pelo governo federal reconhece formalmente o processo de autodefinição iniciado pelos próprios moradores no começo deste ano. A decisão apoia-se em estudos históricos e antropológicos que documentam a presença de famílias negras na região há mais de dois séculos. Registros indicam que os antepassados da comunidade trabalharam sob regime de escravidão na antiga Fazenda Santos Coelho e permaneceram no local ao longo de gerações, como é o caso da família Ganjú, atualmente na sétima geração fixada na área.

 

O reconhecimento chega em um momento de tensão contínua. Nos últimos anos, os moradores denunciaram o avanço da especulação imobiliária e de obras de infraestrutura que ameaçam alterar o modo de vida tradicional e limitar o acesso dos pescadores ao mar. As intervenções questionadas na Justiça afetam áreas sensíveis da paisagem local, incluindo a falésia e o leito do Rio do Cabelo.

Diante do quadro de conflito, o Ministério Público Federal chegou a recomendar a suspensão de novos licenciamentos ambientais no trecho. A obtenção do documento da Fundação Cultural Palmares altera substancialmente a posição da comunidade nessas disputas. A partir do reconhecimento, o grupo passa a ser respaldado por garantias previstas na Constituição e em tratados internacionais, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

 

Na prática, qualquer intervenção, obra ou empreendimento que possa impactar o local passa a exigir a realização de consulta prévia, livre e informada junto aos habitantes. Além do amparo jurídico contra a pressão imobiliária, a certificação abre caminho para a inclusão da população local em programas federais de educação diferenciada, ações afirmativas e políticas sociais direcionadas.

A homologação da autodefinição representa a primeira etapa de um rito burocrático mais amplo. O passo seguinte para a consolidação dos direitos da Penha envolve a abertura dos processos de regularização fundiária, atribuição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), etapa que visa delimitar e titular em definitivo o território da comunidade.

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