Morre Benedito Ruy Barbosa, o homem que levou o Brasil real à lousa de vidro da televisão

Ao trocar o asfalto das metrópoles pela poeira do interior, Benedito Ruy Barbosa desafiou a lógica da teledramaturgia e redescreveu a identidade nacional na tela.

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​A televisão brasileira perdeu o autor que preferiu os horizontes abertos do interior ao concreto das grandes capitais. Benedito Ruy Barbosa faleceu nesta terça-feira, em São Paulo, aos 95 anos, em decorrência de complicações de uma insuficiência renal crônica. Ele estava internado no Hospital do Coração (HCor). Sua partida encerra um ciclo de narrativas que, por décadas, ditaram o ritmo do horário nobre e forçaram o país a olhar para si mesmo além dos limites litorâneos.

​Em uma época em que o sucesso na teledramaturgia parecia depender do glamour urbano e dos conflitos das elites cariocas ou paulistas, Benedito apostou no Brasil profundo. Sua escrita trouxe para o primeiro plano a rotina dos peões, o drama dos posseiros, a força das mulheres da terra e a saga dos imigrantes. O escritor não apenas criava tramas; ele registrava a pulsação de um país rural que a maioria dos telespectadores só conhecia por fotografias.

​Essa escolha estética e temática transformou a história da mídia nacional. Ao colocar no ar a primeira versão de Pantanal, no início dos anos 1990, o autor quebrou o monopólio da audiência e provou que a natureza e o folclore locais tinham força para paralisar a nação. Décadas depois, o mesmo texto provou sua atemporalidade ao repetir o feito em uma nova roupagem. Personagens que flertavam com o misticismo e com a crueza da vida selvagem tornaram-se parte do imaginário popular, discutidos tanto nas calçadas do interior quanto nos escritórios das metrópoles.

​O olhar do dramaturgo também se destacou pela capacidade de fundir o romance folhetinesco a debates sociais agudos. Em O Rei do Gado, o pano de fundo das rivalidades familiares serviu de palco para expor a ferida aberta da reforma agrária e dos conflitos agropastoris, sem perder o apelo popular. Já em Terra Nostra, a reconstrução histórica da chegada dos italianos ao país jogou luz sobre as correntes migratórias que moldaram a força de trabalho e a cultura do Sudeste.

​A morte de Benedito Ruy Barbosa deixa uma lacuna difícil de preencher em um mercado audiovisual cada vez mais pasteurizado e focado em fórmulas rápidas. Ele sai de cena deixando um legado de novelas que funcionavam como crônicas de um Brasil antigo, mas perfeitamente reconhecível, lembrando ao público que as grandes histórias muitas vezes nascem do silêncio dos campos e da simplicidade de quem vive da terra.

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