O Ministério da Fazenda articula os ajustes finais de uma estratégia agressiva para reduzir a inadimplência no Brasil: permitir que o trabalhador utilize o saldo do FGTS para liquidar dívidas. A confirmação veio do ministro em exercício, Dario Durigan, que sinalizou nesta segunda-feira (27) a integração do fundo ao escopo do programa Desenrola 2.0. A proposta, que deve ser apresentada ao Palácio do Planalto nesta terça-feira (28), busca oferecer uma saída rápida para milhões de brasileiros, mas carrega consigo o peso de um debate sobre a sustentabilidade de uma das principais fontes de financiamento do país.
O desenho técnico da medida prevê que o saque seja restrito e vinculado diretamente ao pagamento das dívidas renegociadas dentro do programa. Segundo a equipe econômica, a ideia não é liberar o acesso irrestrito ao saldo, mas sim estabelecer um percentual que sirva como garantia ou amortização direta, respeitando o limite do débito em aberto. A intenção é aproveitar o consenso obtido com bancos e fintechs para anunciar o pacote de medidas ainda no decorrer desta semana, acelerando a limpeza dos birôs de crédito.
Apesar do otimismo no gabinete ministerial, o mercado reagiu com cautela. O ponto de fricção reside na natureza do FGTS, tradicionalmente visto como uma reserva de emergência e o combustível essencial do setor imobiliário. Analistas alertam que a retirada desses valores para o consumo ou quitação de dívidas de curto prazo pode enfraquecer o “colchão” financeiro do trabalhador em momentos de demissão, além de encarecer o crédito habitacional ao reduzir a liquidez do fundo.
A resistência ganhou voz por meio da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), que enxerga um possível desvirtuamento da função social do recurso. Para o setor produtivo, utilizar o fundo para sanear dívidas financeiras pode comprometer o fomento à habitação popular, uma vez que o FGTS é o principal suporte do programa Minha Casa, Minha Vida. O governo, por sua vez, tenta equilibrar a necessidade imediata de reaquecer a economia pelo consumo com a manutenção das políticas de longo prazo, prometendo um controle rigoroso sobre os percentuais autorizados para o resgate.





