A velha Penedo agora filma o próprio futuro

​Tombada pelo IPHAN no século 20 e reconhecida pela Unesco no século 21, a cidade colonial alagoana transforma o São Francisco em cenário de reinvenção cultural

Compartilhe o Post

​Às margens do São Francisco, onde a correnteza desacelera antes de encontrar o Atlântico, Penedo sempre viveu do tempo. Erguida sobre um rochedo no sul de Alagoas por volta de 1565, a povoação nasceu como posto estratégico da coroa portuguesa, enfrentou a ocupação holandesa no século 17 e assistiu à transformação de suas ruas de paralelepípedo em um museu a céu aberto. O passado, que por décadas pareceu a única vocação local, agora divide espaço com o movimento das câmeras.

 

A guinada ganhou carimbo internacional no fim de 2023, quando a Unesco incluiu o município alagoano na Rede de Cidades Criativas na categoria Cinema. O título colocou Penedo em um grupo seleto ao lado de Santos, única outra representante brasileira na modalidade, e fortaleceu uma tradição que vem de longe. Desde a década de 1970, o Festival de Cinema Brasileiro de Penedo reúne cineastas, estudantes e moradores, projetando histórias nas paredes seculares do município. O impulso recente garantiu até a reabertura do Cine Penedo, espaço cultural fechado desde os anos 1960 que voltou à ativa em parceria com a Universidade Federal de Alagoas.

 

Caminhar pelo quadrilátero histórico da cidade revela por que o lugar serviu de inspiração artística por gerações. O Convento Franciscano de Santa Maria dos Anjos guarda talhas douradas que renderam ao povoado a fama de “Ouro Preto do Nordeste”. A poucas quadras dali, a Igreja de Nossa Senhora da Corrente ostenta azulejos portugueses e passagens secretas ligadas aos movimentos abolicionistas. O Teatro 7 de Setembro, erguido em 1884 como a primeira casa de espetáculos do estado, completa a paisagem urbana junto aos casarões da Praça Barão de Penedo.

 

A recuperação da orla fluvial, impulsionada por programas de preservação patrimonial, devolveu vida aos antigos galpões do porto, hoje ocupados por iniciativas comunitárias e turísticas. Dali partem as embarcações que navegam cerca de 30 quilômetros até a foz do Velho Chico, onde o rio se despede entre dunas e lagoas temporárias.

​Enquanto o sol baixa no horizonte e tinge de alaranjado a fachada dos sobrados coloniais, os moradores acompanham o ritmo calmo da Beira-Rio. Penedo prova que preservar a memória não significa parar no tempo, mas sim aprender a contar novas histórias a partir da própria base.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.