Filme feito com inteligência artificial invadiu o festival de Tribeca

​Sem câmeras, atores ou locações reais, cineastas iranianos recriam a violenta expressão em Teerã dentro de um apartamento em Londres, acendendo o debate sobre o futuro do cinema digital.

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​A imagem que abre o filme choca pela crueza: policiais disparando contra a multidão, chamas consumindo veículos e uma criança paralisada diante do caos urbano. Quem assiste ao longa-metragem “Dreams of violets” (“Sonhos de violetas”), que acaba de fazer sua estreia mundial no Festival de Tribeca, em Nova York, é transportado imediatamente para a atmosfera sufocante de Teerã. Naquele período, um apagão de internet imposto pelo governo tentou silenciar a violenta repressão contra manifestantes na capital iraniana. No entanto, a maior surpresa da obra está nos bastidores: nenhum daqueles frames existiu no mundo físico. Toda a produção de 75 minutos foi gerada por inteligência artificial a partir de um apartamento em Londres.

 

Os criadores por trás desse feito são os irmãos Ash e Pooya Koosha. Ash, que deixou o Irã em 2009, compreendeu que a barreira física e o controle governamental impediriam que a verdadeira extensão do sofrimento de seu povo fosse documentada pelos métodos tradicionais. Diante de jornalistas e organizações humanitárias que lutavam para checar fatos escassos, o cineasta decidiu utilizar a tecnologia para romper o cerco informativo. O resultado se tornou o primeiro longa-metragem inteiramente concebido por IA a ser aceito em um festival de cinema de grande porte no mundo.

O processo de criação inverteu a lógica tradicional da indústria cinematográfica. Em vez de sets de filmagem repletos de técnicos, maquiadores e equipamentos pesados, a produção assemelhou-se a um laboratório de design de fluxos. Enquanto Ash Koosha desenvolvia o roteiro, a inteligência artificial interpretava o texto, gerando imagens em tempo real que eram combinadas e ajustadas pelo diretor. Esse método permitiu uma velocidade de execução impressionante, reduzindo o custo total do projeto para cerca de 2 mil dólares. Produtores executivos do setor apontam que a eficiência temporal e financeira dessa abordagem abre caminhos inéditos para contadores de histórias independentes.

Como era de se esperar, a recepção em Manhattan dividiu opiniões e provocou debates acalorados entre o público e a crítica especializada. Durante a exibição, alguns espectadores abandonaram a sala insatisfeitos com a estética visual, que críticos compararam a gráficos de videogames antigos ou animações inacabadas, apontando a falta de expressividade genuína nas reações emocionais dos personagens virtuais. Por outro lado, grupos de espectadores permaneceram nos corredores após a sessão discutindo o valor conceitual da obra. Para muitos, a imperfeição técnica passa a segundo plano diante do impacto político e da urgência do relato humanitário.

A ascensão dessa nova vertente tecnológica evoca a metáfora da “caixa de Pandora”, dividindo a comunidade cinematográfica global. Enquanto sindicatos e profissionais de Hollywood expressam forte preocupação com a automação de postos de trabalho e a redução de orçamentos, figuras proeminentes do setor defendem que a IA deve ser encarada como uma nova linguagem de expressão pessoal. O fenômeno não é isolado: no mercado cinematográfico do Festival de Cannes, outra produção gerada por IA, intitulada “Hell grind”, foi apresentada recentemente, reforçando a tendência de expansão dessas ferramentas no entretenimento.

Para além das discussões sobre pixels e algoritmos, “Dreams of violets” cumpre o papel primordial do jornalismo e da arte: dar voz àqueles que foram silenciados. Ao recriar a memória coletiva de um protesto sob censura, os irmãos Koosha demonstraram que a tecnologia pode ser um instrumento de conscientização social e denúncia política, transformando a escassez de recursos em um manifesto de criatividade e resistência cultural.

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