Skip James, o fantasma que sabia dedilhar. A estranha sobrevivência de um ícone do blues

​Entre o esquecimento crônico e o resgate que mudou a história do blues, músico do Mississippi deixou obra obscura que marcou gerações

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​Em 1931, um jovem negro entrou em um estúdio improvisado na cidade de Grafton, no Wisconsin, gravou 18 músicas e saiu de lá com um aperto de mãos e uma promessa vazia. O que parecia ser o início de uma carreira promissora terminou em silêncio. Engolido pela Grande Depressão econômica que assolava os Estados Unidos, Nehemiah Curtis James, conhecido pelo apelido de Skip James, desapareceu do mapa musical de forma tão abrupta que, por décadas, historiadores e colecionadores debateram se ele realmente tinha existido ou se era apenas um mito moldado em discos de rotação 78.

A trajetória de Skip James é um dos relatos mais singulares da música ocidental. Nascido em Yazoo City, no Mississippi, em 1902, ele cresceu absorvendo os sons rurais da região profunda do sul americano. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, seu aprendizado musical começou no órgão da igreja de seu pai, um pastor metodista. Essa formação inicial deu a ele uma percepção harmônica incomum para a época. Anos mais tarde, trabalhando em frentes de expansão de estradas, James transferiu esse conhecimento para o violão, adotando uma afinação em ré menor aberto que conferia às suas composições uma atmosfera densa, quase sombria, que se tornaria sua marca registrada.

A vida de James antes da fama efêmera seguiu os caminhos tortuosos da segregação e da sobrevivência no sul profundo. Ele transitou por ocupações diversas e marginalizadas, foi lenhador, trabalhador rural, apostador e contrabandista de bebidas no período da Lei Seca. A lenda local conta que o apelido “Skip” surgiu justamente de sua agilidade em escapar das batidas policiais. Quando o caçador de talentos H.C. Speir o indicou para a gravadora Paramount, James levou para o estúdio essa bagagem de vivências brutas e uma técnica de dedilhado veloz e precisa, que misturava a melancolia do Delta do Mississippi com a complexidade geométrica do estilo Piedmont.

O colapso econômico dos anos 30 frustrou as expectativas comerciais das gravações. Sentindo-se lesado pela indústria fonográfica, James tomou uma decisão drástica: abandonou os palcos seculares, abraçou a fé religiosa e tornou-se ministro batista em Dallas. Para o novo pregador, o blues que outrora praticava havia se tornado a música do diabo. O silêncio durou mais de três décadas, período no qual seus poucos discos sobreviventes viraram relíquias disputadas por entusiastas ao redor do mundo.

O segundo ato dessa história começou em 1964, no auge do movimento de recuperação do folclore musical americano. Três jovens pesquisadores e músicos, John Fahey, Henry Vestine e Bill Barth, iniciaram uma busca obstinada pelo Mississippi baseados em boatos vagos. Localizaram James em um leito de hospital em Tunica, sofrendo de uma grave enfermidade que ele mesmo atribuía, com misticismo, à maldição de uma antiga amante. Mesmo debilitado e sem tocar há anos, o músico pegou um violão emprestado e compôs imediatamente uma crônica sobre seu estado de saúde.

Os jovens quitaram as despesas médicas do artista e o levaram para o norte, direto para o palco do Festival Folk de Newport de 1964. Diante de uma plateia de jovens brancos urbanos, a figura austera de James, com sua voz de falsete cortante e letras que falavam de abandono e violência, causou perplexidade. Enquanto outros músicos redescobertos no mesmo período, como Mississippi John Hurt, ofereciam um som mais brando e acessível, a obra de James mantinha um tom de crueza intransigente.

​Embora o retorno aos palcos e o lançamento de novos álbuns entre 1964 e 1968 tenham garantido um reconhecimento tardio, o verdadeiro impacto financeiro e cultural veio do outro lado do Atlântico. Em 1966, o power trio britânico Cream, liderado por Eric Clapton, gravou uma versão eletrificada de “I’m So Glad”, uma das composições de James de 1931, em seu disco de estreia. Os direitos autorais dessa gravação renderam a James a quantia de 10 mil dólares, o maior montante que ele movimentou em sua vida inteira, permitindo um final de existência com relativo conforto material antes de falecer, em decorrência de um câncer, em outubro de 1969. Ao fim, o homem que passou metade da vida como um fantasma garantiu um lugar definitivo na fundação do que hoje se conhece por música pop e rock moderno.

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