O dia 19 de junho carrega um simbolismo profundo para a cultura brasileira. Foi nesta data, no ano de 1898, que o italiano Afonso Segreto registrou as primeiras imagens em movimento no território nacional, capturando a entrada de seu navio na Baía de Guanabara. Mais de um século depois, o jornal O Globo aproveitou o marco histórico para realizar um mapeamento da produção cinematográfica do país. A iniciativa reuniu um colégio eleitoral de peso: 185 profissionais do audiovisual, incluindo diretores, produtores, roteiristas, atores, críticos e fotógrafos, com a missão de apontar os cem maiores filmes da nossa história.
Cada participante recebeu a tarefa de listar suas vinte produções favoritas. Após a compilação dos votos, o topo do pódio revelou um panorama que une a sensibilidade social, o rigor estético e o impacto internacional. O grande vencedor foi Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles. Estrelado pela paraibana Soia Lira, Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, o longa-metragem não apenas conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e o Globo de Ouro na época de seu lançamento, mas continua a reverberar como um retrato contundente da busca por afeto e cidadania em um país fraturado.

Logo atrás do líder de citações, a medalha de prata ficou com o clássico do Cinema Novo Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), obra-prima de Glauber Rocha que revolucionou a estética audiovisual ao misturar misticismo e denúncia social no sertão. O terceiro lugar foi ocupado por Cidade de Deus (2002), codirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, produção que redefiniu o alcance do cinema contemporâneo brasileiro no exterior e acumulou quatro indicações ao Oscar. Em décimo lugar ficou “A Hora da Estrela”, estrelado pela suave Marcelia Cartaxo, com direção de Suzana Amaral.
O grupo dos dez primeiros colocados funciona como uma linha do tempo das principais correntes artísticas do país. Entre os destacados estão produções de forte teor documental e político, como Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, e ficções que traduzem a literatura nacional, como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos. A lista também consagra a vanguarda silenciosa de Limite (1931), de Mário Peixoto, e a crueza urbana de Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), de Hector Babenco. Fecham o top 10 as narrativas transgressoras de Bye Bye Brasil (1980), de Cacá Diegues, Terra em Transe (1967), também de Glauber Rocha, e a sensível adaptação de Clarice Lispector em A Hora da Estrela (1985), dirigida por Suzana Amaral.
A construção dessa lista contou com o voto de nomes fundamentais do cenário artístico atual, como os cineastas Kleber Mendonça Filho e Anna Muylaert, e os atores Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Alice Carvalho. Ao analisar o resultado, Walter Salles destacou que o desejo de reflexão sobre a identidade brasileira, que moveu a criação de Central do Brasil após períodos de forte instabilidade política e econômica no final do século passado, permanece vivo e necessário.
O levantamento também joga luz sobre os grandes autores do país. Nelson Pereira dos Santos, frequentemente apontado como o precursor do Cinema Novo, divide com o cearense Karim Aïnouz o posto de realizador com mais títulos no topo da lista, somando quatro filmes cada. Logo em seguida, diretores como Eduardo Coutinho, Glauber Rocha, Leon Hirszman e o próprio Walter Salles aparecem com três produções lembradas. Muito além de um simples ranking, o resultado final funciona como um inventário afetivo e um convite para que novas gerações descubram a riqueza visual do Brasil.





