No dia 17 de junho de 1946, Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, via nascer Maria Bethânia Viana Teles Veloso. Oito décadas depois, aquela que trocou o interior da Bahia pelos palcos do mundo consolida-se como uma das maiores forças da cultura lusófona. Nesta quinta-feira, ao completar 80 anos de idade e mais de 60 de uma carreira profissional ininterrupta, a intérprete de “Reconvexo” não apenas revisita o próprio passado, mas continua a ditar os rumos do presente.
A trajetória que hoje mobiliza multidões começou a ganhar contornos urbanos em 1960, quando Bethânia mudou-se para Salvador. Foi na capital baiana que o teatro funcionou como porta de entrada para a música, estreando na peça “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues. Em 1964, o histórico espetáculo “Nós, Por Exemplo” reuniu a cantora a Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Tom Zé na abertura do Teatro Vila Velha. Contudo, o divisor de águas definitivo ocorreu em 13 de janeiro de 1965, no Rio de Janeiro, quando substituiu Nara Leão no show “Opinião”, assinalando o início de sua projeção nacional.
A discografia subsequente ajudou a moldar a identidade musical do país. São mais de 30 álbuns de estúdio, colecionando recordes de vendas com trabalhos como “Pássaro da Manhã” e “Álibi” nos anos 1970, além de incursões profundamente autorais e minimalistas, a exemplo do conceitual “Ciclo”, lançado em 1983. Essa caminhada solitária também encontrou força no coletivo. Ao lado de Caetano, Gal e Gil, Bethânia integrou os Doces Bárbaros. O quarteto adotou a estética hippie e um repertório inédito para confrontar o conservadorismo e a censura impostos pela ditadura militar na época.
A longevidade da artista ganhou um novo capítulo internacional recentemente. Bethânia tornou-se a primeira representante da Música Popular Brasileira a vencer o Grammy tradicional na categoria de Melhor Álbum de Música Global, feito conquistado pelo registro do show “Caetano e Bethânia Ao Vivo”, superando concorrentes de peso como o nigeriano Burna Boy. Com a honraria, ela passa a integrar um restrito grupo de mulheres brasileiras premiadas pela premiação norte-americana, ao lado de Astrud Gilberto, Luciana Souza e Eliane Elias.
Atualmente, a celebração de sua carreira sexagenária toma o formato dos palcos com uma turnê que tem arrastado multidões por capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Longe de se apoiar apenas na nostalgia, o espetáculo injeta frescor ao trazer uma canção inédita deixada por Rita Lee, além de composições contemporâneas de Chico César e Xande de Pilares. Entre uma canção e outra, a atmosfera mística do show ganha contornos literários quando a artista recita textos de Clarice Lispector e do líder indígena Davi Kopenawa, provando que, mesmo após 80 anos, sua voz permanece sintonizada com as urgências e as belezas do Brasil.





