A plateia entra, as luzes se apagam por completo e o espetáculo começa. Entre os dias 19 e 21 de junho, o Teatro Hermilo Borba Filho, localizado no Recife Antigo, recebe o Festival de Teatro Cego, um projeto que desafia o formato convencional das artes cênicas ao eliminar totalmente a imagem do palco. A proposta encerra sua turnê pelo país na capital pernambucana, após registrar sessões gratuitas e grande adesão de público no Rio de Janeiro, em Aracaju e em Vitória.
Sob a direção e dramaturgia de Paulo Palado, a Companhia Teatro Cego traz três produções distintas para a temporada: “Acorda, Amor!”, que embala uma trama de resistência política nos anos 1970 ao som de canções de Chico Buarque tocadas ao vivo pela banda Social Samba Fino; “O Grande Viúvo”, livre adaptação do conto homônimo de Nelson Rodrigues; e “Clarear”, que aborda a convivência e a diversidade cotidiana. Sem recursos visuais de cenário ou figurino, a ambientação de cada história se desenvolve na mente do espectador, provocada por estímulos táteis, sonoros e olfativos estrategicamente distribuídos pela sala.
O elenco do festival reflete a própria premissa da iniciativa, integrando artistas cegos, com baixa visão e videntes. Para o diretor, a performance na escuridão amadurece a expressividade dos atores e consolida um espaço real de trabalho e inserção para profissionais com deficiência visual. Palado destaca que a ausência de luz funciona como um elemento estético potente, capaz de gerar conexões imediatas com o público e propor um exercício prático de alteridade.
O formato acumula relevância no cenário cultural internacional. No ano passado, a companhia representou o Brasil no Fringe Festival, em Edimburgo, na Escócia, considerado o maior encontro de artes do mundo. A passagem pelo circuito europeu rendeu indicações a prêmios expressivos, como Melhor Experiência em Espetáculo e Melhor Espetáculo de Neurodiversidade, além de cobertura em veículos de prestígio como o jornal The Guardian e a rádio BBC.
Para viabilizar a experiência com total tranquilidade, a produção adota uma estrutura de bastidores rigorosa. A sala escura permanece sob constante monitoramento por meio de câmeras com tecnologia infravermelha, e um sistema de iluminação de emergência está pronto para ser acionado de forma imediata caso haja necessidade. Antes de cada apresentação, a equipe realiza uma introdução detalhada para orientar os participantes sobre as normas de segurança e o funcionamento da dinâmica imersiva. O evento é realizado pela R. Gamboa Arte & Cultura e conta com o patrocínio da Transportadora Associada de Gás (TAG) através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.





