O grande buffet da impunidade: A odisseia de Vorcaro em Brasília

​Entre celas especiais e delações em banho-maria, o ex-banqueiro ensaia um truque de mágica onde nada desaparece, mas tudo se perde na digestão do sistema

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​A novela Vorcaro atingiu o estágio de realismo fantástico. Há meses, o Brasil assiste a um balé burocrático onde o ex-banqueiro, instalado confortavelmente na superintendência da Polícia Federal em Brasília, tenta convencer os investigadores de que suas confissões valem um prêmio de permanência. Enquanto a PF, num ímpeto de impaciência, já solicitou sua transferência para a vida real, leia-se, a prisão comum, o personagem central do drama insiste em reger sua própria sorte, como quem tenta segurar um jato d’água com as mãos.

​A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, vive um dilema digno de nota. De um lado, a pressão pública por revelações que prometem estremecer os alicerces da República; do outro, a desconfiança técnica sobre a utilidade real do que foi entregue até agora. A PGR resiste em selar um acordo de colaboração, talvez por suspeitar que o “recheio” do que Vorcaro oferece seja composto por mais casca do que substância. É um jogo de paciência onde cada lado espera que o outro se canse primeiro, transformando a busca por justiça em um exercício de resistência física e mental.

​No horizonte, paira a sombra daquela que é a instituição mais sólida do Brasil: a “pizza”. Não uma refeição modesta, mas uma versão monumental, de dimensões colossais, capaz de cobrir o gramado do Maracanã e saciar o apetite de uma elite política e empresarial que vê, no avançar e recuar das investigações, o conforto de uma possível impunidade costurada nos bastidores. A insistência de Vorcaro em manter rédeas sobre uma situação que, teoricamente, deveria ter escapado ao seu controle, revela um otimismo que beira o cômico. Ele parece acreditar que, com as cartas certas, ainda pode transformar seu processo em um banquete onde ele próprio será o convidado de honra, e não o prato principal. Enquanto o país espera pelo desfecho, o que temos é um espetáculo onde o suspense é substituído pela certeza de que, nesta cozinha jurídica, o forno está sempre ligado para preparar o mesmo final de sempre.

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