A rotina de tranquilidade que a sergipana Shayna Mendonça construiu em Bordeaux ao longo dos últimos seis anos ruiu em questão de dias. Coberta por uma fuligem densa e sufocante, a cidade francesa tornou-se inabitável para a família de Shayna, que precisou recolher o essencial e pegar a estrada em busca de ar respirável. O motivo da pressa tem nome e diagnóstico: a bronquite de um parente idoso, incompatível com a péssima qualidade do ar provocada pelos incêndios florestais que assolam o sudoeste da França e a região central da Espanha.

A fuga para Escoussans, um pequeno município a cerca de 40 quilômetros do epicentro do problema, foi a única alternativa viável para a brasileira de 34 anos. A rota para fora da crise, no entanto, é um privilégio de poucos. Sem transporte aéreo e com linhas ferroviárias paralisadas, quem não possui veículo próprio ou rede de apoio distante da fumaça acabou confinado em abrigos públicos providenciados pelas autoridades locais.
A pausa para respirar é temporária. Shayna planeja retornar nos próximos dias a Bordeaux, não para voltar à vida normal, mas para se juntar à rede de voluntários que presta assistência a centenas de desabrigados. A trégua oferecida pela queda recente nas temperaturas é frágil e tem prazo de validade. Os meteorologistas alertam para a chegada de uma nova bolha de ar quente que promete elevar os termômetros novamente, reativando o pavor de novos focos de incêndio.

Do outro lado da fronteira, o cenário espanhol reflete a mesma dramaticidade. O governo em Madri decretou estado de emergência após a junção de duas grandes frentes de fogo, enquanto equipes de bombeiros tentam conter focos ativos nas formações montanhosas ao noroeste da capital. Entre termômetros registrando marcas históricas acima da média sazonal e céus tingidos de cinza, o continente enfrenta uma das crises climáticas mais severas dos últimos anos, deixando milhares de famílias em um incerto limbo cotidiano.





