Operação “Extra-Zero” desafia segurança pública e expõe gargalo estrutural na Paraíba

​Com adesão em massa de investigadores e escrivães, paralisação de jornadas extraordinárias coloca metade das delegacias do estado em xeque e pressiona Governo por solução salarial.

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A Polícia Civil da Paraíba atravessa um momento de paralisia estratégica que vai muito além de uma simples reivindicação de classe. Sob o rótulo de “Extra-Zero”, o movimento deflagrado neste domingo (1) revela o esgotamento de um modelo de gestão que depende umbilicalmente das horas extras para manter as portas abertas. Com a recusa de cerca de 90% do corpo investigativo em cumprir plantões e jornadas suplementares, o estado se vê diante de um cenário onde o funcionamento de até 50% das delegacias está seriamente comprometido.

O “nó górdio” da questão reside na disparidade entre a carga de trabalho e a contrapartida financeira. Investigadores e escrivães sustentam que o sistema atual é paliativo e mascara um déficit crônico de pessoal. Ao suspenderem o que chamam de “extras”, os policiais retiram o suporte que mantém o ritmo das apurações e o atendimento ao público, especialmente em cidades do interior, onde a capilaridade da instituição é mais frágil. Sem o reforço voluntário, e remunerado à parte, a engrenagem investigativa perde tração, ameaçando o fluxo de inquéritos e a pronta resposta a crimes.

Em uma tentativa de conter a erosão operacional, a Delegacia-Geral agiu rápido ao implementar uma portaria que estabelece polos de plantão e a escala de 24 por 72 horas. No entanto, o que a administração apresenta como solução logística, a categoria interpreta como uma medida insuficiente que ignora a raiz do problema: a defasagem salarial e a sobrecarga física dos servidores. A estratégia governamental de centralizar atendimentos pode garantir a legalidade do funcionamento mínimo, mas dificilmente aplacará o sentimento de desvalorização que alimenta o movimento.

Enquanto o impasse persiste, o diálogo entre a administração pública e os sindicatos se torna o único caminho para evitar um apagão na segurança judiciária. A gestão estadual defende a legalidade de suas ações e afirma manter as portas abertas para negociação, mas o sucesso da Operação “Extra-Zero” demonstra que a categoria está disposta a testar os limites do sistema para forçar uma reestruturação profunda. O desfecho desta crise definirá não apenas os vencimentos dos policiais, mas a própria viabilidade do policiamento civil no território paraibano.

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