O Sertão não cabe no Mapa: CCBB São Paulo inaugura exposição que humaniza o imaginário da Caatinga

​Mostra "Atlântico Sertão" subverte o clichê da terra rachada e apresenta o território como polo de tecnologia ancestral e resistência política.

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Se você tentar localizar o “Sertão” em um mapa oficial, vai acabar encontrando apenas um vazio cartográfico. Para o Estado, ele não existe; para a literatura do século passado, era o cenário da escassez. Mas para a exposição “Atlântico Sertão”, que estreia nesta quarta-feira (15) no CCBB São Paulo, esse território é, na verdade, uma das maiores potências de invenção e resistência do país. O projeto desembarca na capital paulista após passar pela ONU, em Genebra, com uma missão clara: enterrar de vez a imagem da terra rachada e do gado seco.

​A curadoria de Marcelo Campos e sua equipe propõe um divórcio com o regionalismo clássico. Se antes escritores como Euclides da Cunha descreviam o sertanejo como uma massa coletiva e sofrida, a mostra agora devolve a individualidade e a voz a mais de 70 artistas. O que se vê nos corredores do prédio histórico não é um pedido de socorro, mas uma exibição de musculatura intelectual. “O sertão é um termo afetivo”, define Campos, lembrando que a sobrevivência em lugares como o Cariri não se dá por milagre, mas por domínio técnico e sabedoria ancestral.

​O percurso visual é um soco no estigma. A visita ignora o clichê do ocre e começa por um verde vibrante, símbolo das veredas que teimam em florescer. Entre o azul das cosmologias espirituais e o vermelho das tensões políticas, a mostra conecta o interior do Brasil diretamente com a África, usando o Oceano Atlântico como uma ponte de saberes, não apenas como um rastro de traumas coloniais. No térreo, a instalação de biarritzzz sintetiza esse diálogo ao transformar o triângulo do forró em um portal para sonoridades desérticas do outro lado do mar.

​Para além da contemplação estética, a exposição carrega um manifesto político. O Coletivo Atlântico, que organiza a mostra, utiliza o espaço para pautar uma carência invisível: a falta de regulamentação da profissão de artista visual no Brasil. É o “sertão” lutando por direitos básicos dentro de um Congresso que ainda não reconhece quem faz arte como trabalhador. Ao ocupar São Paulo, a mostra prova que Guimarães Rosa estava certo, o sertão está em toda parte, mas acrescenta que ele está, sobretudo, cansado de ser visto apenas como um retrato em preto e branco do passado.

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