UE barra proteína animal brasileira e Brasília articula ofensiva diplomática

​Exclusão do país da lista de exportadores autorizados surpreende Itamaraty e setor produtivo; nova regra fundamentada em restrições ao uso de antibióticos entra em vigor em setembro.

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​A longevidade de quatro décadas nas relações comerciais entre os frigoríficos brasileiros e as gôndolas europeias sofreu um abalo estrutural nesta terça-feira. Em uma decisão que ecoou com estranheza nos corredores da Esplanada dos Ministérios, a União Europeia retirou o Brasil da lista de nações autorizadas a fornecer produtos de origem animal para consumo humano. O movimento isola o país dentro do Mercosul, mantendo vizinhos como Argentina, Uruguai e Paraguai em conformidade com as exigências de Bruxelas, enquanto o maior exportador da região encara o cronômetro para uma suspensão que passa a valer em 3 de setembro.

O Palácio do Planalto reagiu prontamente por meio de uma nota conjunta assinada pelos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e das Relações Exteriores. O texto classifica a medida como inesperada, especialmente considerando o histórico de cooperação sanitária entre as partes. A estratégia imediata do governo Lula foca na reversão do quadro antes que o embargo se materialize, mobilizando a delegação brasileira junto ao bloco para uma reunião emergencial com autoridades sanitárias nesta quarta-feira. O objetivo é dissecar os fundamentos técnicos da exclusão e apresentar as contrapartidas brasileiras.

O pano de fundo para o distanciamento comercial não é meramente burocrático, mas pautado por uma transformação nas políticas de saúde pública do continente europeu. A Comissão Europeia intensificou o cerco contra a resistência bacteriana, limitando drasticamente o uso de antibióticos na pecuária que não tenham finalidade estritamente terapêutica. Para os reguladores europeus, o modelo de produção em larga escala que ainda permite certas substâncias como promotores de crescimento ou preventivos em massa não se alinha mais aos padrões exigidos para os Estados-Membros e seus parceiros externos.

​A notícia chega em um momento de sensibilidade política aguda. O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que caminha sob uma aplicação provisória desde o início de maio, ainda enfrenta o escrutínio de tribunais europeus quanto à sua validade jurídica. Embora o governo assegure que o fluxo de embarques permanece inalterado no curto prazo, a exclusão da lista de países aptos coloca um ponto de interrogação sobre a viabilidade prática do tratado. Se a diplomacia não conseguir demover Bruxelas da decisão, o agronegócio brasileiro precisará repensar seus protocolos de manejo animal para não perder um dos mercados de maior valor agregado do mundo.

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