Campina Grande e os trilhos da exclusão: o drama das famílias que resistem ao avanço do VLT

​O projeto de modernização urbana ignora o passivo habitacional de décadas e coloca centenas de pessoas sob risco iminente de despejo na "Rainha da Borborema"

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​A promessa de modernidade que desembarca em Campina Grande sob a forma de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) tem provocado um rastro de insegurança e aflição em bairros cortados pela antiga linha férrea. Para o governo municipal, o projeto é um símbolo de progresso e um investimento de 100 milhões de reais em mobilidade. Para as famílias que habitam o entorno dos trilhos há mais de 50 anos, a obra representa a ameaça concreta de perderem seus lares sem uma alternativa habitacional digna. O contraste entre a urgência da infraestrutura e a invisibilidade social dos moradores revela uma ferida antiga: a falta de uma política habitacional que acompanhe o crescimento da segunda maior cidade da Paraíba.

​O bairro Tambor, fundado entre o fim da década de 60 e o início dos anos 70, é o retrato dessa ocupação consolidada ao longo do tempo. O que começou com casebres de taipa em uma área alagável tornou-se o endereço de gerações de trabalhadores que, sem acesso ao mercado imobiliário formal ou a programas públicos eficientes, construíram suas vidas no espaço que a Rede Ferroviária Federal abandonou. Com a desativação definitiva do transporte de cargas e a consequente falência do uso ferroviário na malha urbana, essas ocupações expandiram-se, revelando o abismo entre o déficit habitacional oficial e a realidade das famílias que buscam um teto em meio à precarização.

​O início das obras antes mesmo da conclusão dos estudos técnicos aprofundou a desconfiança. Sem um canal de diálogo transparente, a prefeitura deu os primeiros passos com o cadastramento de moradores sob informações desencontradas, gerando pânico entre aqueles que temem ser removidos para áreas periféricas, distantes das redes de apoio e das fontes de sustento que construíram. A movimentação de terra já provoca alagamentos, antecipando os impactos negativos que o governo prefere ignorar ao propagar a data de 2026 para o início da operação do transporte.

​Diante do silêncio oficial, as comunidades tomaram as rédeas da situação. Com a assessoria técnica do Observatório das Metrópoles e do BrCidades, os moradores superaram o isolamento e levaram o conflito para instâncias como a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal Regional Federal da 5ª Região. A articulação política, liderada majoritariamente por mulheres negras e mães, transformou o medo em um processo de formação e mobilização. Mais do que apenas contestar a remoção, essas famílias exigem que o planejamento da cidade inclua o direito à permanência e a infraestrutura básica — como saneamento, iluminação e lazer — que sempre lhes foi negada.

​A disputa em Campina Grande não se resume à escolha de um modal de transporte, mas sobre quem tem direito de habitar a área central. Enquanto a gestão municipal foca na execução técnica e na celeridade da obra para marcar sua administração, os moradores do Tambor e da Estação Velha seguem forçando a abertura de mesas de negociação. A luta desses cidadãos expõe a contradição de um modelo de desenvolvimento que utiliza recursos federais para financiar o progresso técnico, mas falha em garantir o direito humano fundamental à moradia para quem construiu a história da cidade à margem do desenvolvimento oficial.

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