O jornalismo brasileiro perdeu uma de suas referências de sobriedade e refinamento. Renato Machado morreu na manhã desta quinta-feira, aos 83 anos, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Para além do vasto currículo de coberturas internacionais e da presença marcante na bancada do Bom Dia Brasil, o profissional deixa como principal herança a lembrança de um comportamento quase extinto na televisão: a capacidade de informar com extrema fabilidade, precisão e uma delicadeza rara.
Nos bastidores da TV Globo, a notícia de sua partida gerou uma onda de homenagens de colegas que conviveram diariamente com sua generosidade. Renata Vasconcellos, que dividiu a apresentação do matinal com o jornalista por quase uma década, expressou o sentimento de perda definindo-o como um verdadeiro norteador de sua trajetória. Ela relembrou a habilidade singular de Renato em defender pontos de vista com tamanha polidez que o debate se tornava um exercício de admiração mútua, temperado por um humor sutil e inteligente.

A transição entre o rigor das notícias e o prazer de viver era um dos traços mais marcantes de sua personalidade. Amante da gastronomia, da música clássica e das artes, Renato transformava conversas cotidianas em lições de cultura. Ana Paula Araújo, atual comandante do Bom Dia Brasil, recordou com carinho os momentos em que o veterano abria as portas de casa para dar verdadeiras aulas de ópera aos amigos, além do papel decisivo que ele teve ao incentivar seus primeiros passos na emissora há três décadas.
Essa mistura de erudição e acolhimento também foi ressaltada por Leilane Neubarth, sua parceira de bancada por sete anos. Leilane revelou que, mesmo internado, Renato fez questão de lhe enviar uma mensagem afetuosa na semana anterior, celebrando um momento de transição em sua carreira. A jornalista brincava que o colega carregava uma distinção natural, assemelhando-se a um príncipe pela forma impecável como tratava as pessoas e conduzia a informação.
A reverência ao profissional estendeu-se a outros nomes do jornalismo, como Renata Capucci, que relembrou com saudade os tempos de convivência em Londres e as conversas regadas a bons vinhos, e William Bonner. O editor-chefe do Jornal Nacional pontuou que Renato representava o equilíbrio exato entre a experiência e o discernimento, atuando como uma voz de consulta essencial para as decisões editoriais da emissora.
Com sua partida, o público perde a voz aveludada e a presença serena que marcaram as manhãs do país, mas os bastidores da notícia guardam a memória de um homem que provou ser possível fazer jornalismo com rigor técnico, profundidade e, acima de tudo, fidalguia.
Fonte: G1





