Houve um tempo em que colocar os pés em Tambaú exigia mais do que um GPS e paciência no trânsito; exigia espírito de desbravador. Antes de se tornar o metro quadrado onde a brisa marinha disputa espaço com o monóxido de carbono, o bairro era uma espécie de “quintal rústico” da capital paraibana. Enquanto as outras capitais do país se jogavam ao mar desde o berço, João Pessoa, com seu jeito contido e interiorano, preferia observar o Rio Sanhauá. O litoral era, até o século XVIII, um terreno inóspito, reservado a quem não tinha medo de isolamento ou de areia nos sapatos.
A ocupação começou no improviso, com a sabedoria estética da necessidade. Casas de pescadores e residências de veraneio eram erguidas com o que a natureza oferecia de graça: palmas de coqueiro secas que, após um manejo artesanal, viravam telhado e parede. Era a arquitetura sustentável antes da expressão virar selo de construtora. Naquela época, o lugar atendia pelo nome de Praia de Santo Antônio e funcionava como uma extensão rural da família Brandão. Marcos Brandão, o herdeiro, até tentou reivindicar as terras anos depois, mas descobriu que, na briga entre o título de propriedade e a ocupação urbana, a burocracia costuma ser mais lenta que a maré.
A grande virada de chave aconteceu quando a trilha dos nativos ganhou status de asfalto e o nome de Avenida Epitácio Pessoa. De repente, a praia não era mais apenas o destino de quem tinha “restrição médica” e buscava a cura pelo iodo; virou o destino de quem buscava o prazer. Nos anos 50, o cenário era uma colcha de retalhos sociais: de um lado, as palhoças dos que viviam da rede; do outro, a burguesia local estreando suas segundas casas. O fluxo de gente cresceu mais rápido que a rede de esgoto, provando que o desejo de ver o mar sempre atropelou o planejamento urbano.
Nesse caldo cultural, o Elite Bar reinava absoluto nos anos 40. Autoproclamado o “melhor cassino do Nordeste”, o estabelecimento era o ponto de parada obrigatório tanto para os bondes quanto para a vaidade da juventude dourada. O lugar era tão emblemático que até Getúlio Vargas deu as caras e, reza a lenda, aprovou o serviço. Hoje, no lugar onde se brindava ao poder e à sorte, o Banco do Brasil instalou suas máquinas, substituindo as fichas de jogo por extratos bancários — uma troca simbólica que resume bem a evolução das prioridades nacionais.
Nos anos 70, a paisagem recebeu seu elemento mais audacioso: o Hotel Tambaú. Projetado por Sérgio Bernardes, o disco voador de concreto pousou na areia em um terreno da União que, por lei, deveria ser intocado. Foi um golpe de engenharia e uma bofetada nas normas ambientais da época. Enquanto os técnicos suavam para equilibrar a estrutura circular no solo arenoso, a sociedade provinciana se dividia entre o orgulho pelo novo cartão-postal e a crítica pelo privilégio da ocupação. No mesmo rastro de quebra de tabus, o Bar Maravalha abriu as portas para “todas as tribos”, servindo como o refúgio libertário em uma cidade que ainda guardava muito do ranço conservador.
Hoje, Tambaú olha para o passado com a nostalgia de quem trocou o sossego da restinga pelo barulho das buzinas, fingindo não perceber que sua história foi escrita entre o luxo forçado e a simplicidade que a maresia, aos poucos, insiste em levar.





