O que acontece quando o ceticismo do mercado cruza o caminho da determinação sertaneja? A resposta repousa em uma vitrine de premiações internacionais sob a forma de um queijo de cabra de casca azulada. Produzido em São João do Cariri, no interior da Paraíba, o “Aventureiro” acaba de alcançar o topo do pódio na Expo Queijo, em Araxá (MG), consolidando o Nordeste como um polo de inovação na gastronomia artesanal.
A conquista do produtor Renato Brito, da Capril Encanto da Macambira, carrega tanto rigor técnico quanto uma pitada de desabafo. O nome do queijo, hoje medalhista de ouro, nasceu de um comentário desdenhoso ouvido em 2024, quando um crítico rotulou os produtores paraibanos como meros “aventureiros” sem técnica. Em vez de recuar, Brito canalizou a provocação em pesquisa e desenvolvimento. Prometeu aos colegas de ofício que criaria uma iguaria com esse exato nome e que ela seria campeã. A promessa foi paga com juros e reconhecimento global.
O grande diferencial do produto está em sua singularidade visual e sensorial. Com um período de maturação que varia entre 30 e 40 dias, o queijo desenvolve uma rara cobertura de mofo azul na superfície. Longe de ser um acidente ou uma tentativa de replicar fórmulas europeias, análises laboratoriais comprovaram que a reação é nativa: trata-se de um reflexo direto do clima seco da região, da vegetação que alimenta as cabras e do manejo específico do leite no Cariri. É a tradução do território em sabor.

Antes de brilhar em Minas Gerais, o queijo já havia dado sinais de seu potencial ao faturar uma medalha de prata em outro concurso internacional realizado em São Paulo. O acúmulo de medalhas coroa um esforço de reestruturação técnica e comercial iniciado em 2022, quando a Capril Encanto da Macambira passou a receber o suporte do Sebrae/PB. O trabalho de mentoria foca em gargalos comuns ao pequeno produtor, como a eficiência de processos internos, adequação a normas sanitárias e posicionamento de mercado.
Para os especialistas do setor, o feito do “Aventureiro” reposiciona a caprinocultura paraibana. Mostra que o semiárido é capaz de entregar alta gastronomia competitiva, desafiando a hegemonia histórica do eixo Sul-Sudeste na produção leiteira. Ao transformar uma crítica em marca registrada, Renato Brito não apenas garantiu um troféu para sua propriedade, mas provou que, no mercado de alimentos finos, a ousadia nordestina é tudo, menos amadorismo.





