A história dos quilombos na Paraíba não se escreve apenas com os registros do passado, mas com o movimento das mãos que moldam o barro, trançam os cabelos e temperam a identidade de territórios inteiros. A partir desta segunda-feira (20), o Quilombo Cruz da Menina, localizado no município de Dona Inês, transforma-se no ponto de encontro dessa ancestralidade viva com a abertura da sexta edição do Festival da Cultura Quilombola. Até o próximo sábado (25), a comunidade abre suas portas para partilhar saberes culinários, artísticos e rituais que resistem ao tempo.

A abertura dos trabalhos acontece logo cedo, na Cozinha Comunitária local, com uma imersão prática nos segredos da culinária regional, focada na produção artesanal de linguiças e carne de sol. Mais do que um aprendizado técnico, o momento funciona como uma transmissão de afetos e receitas que cruzaram gerações. Ao longo da semana, a programação se desdobra em oficinas de capoeira, pife, trança nagô e cerâmica, unindo moradores e visitantes em torno de práticas que dão identidade ao povo negro do estado.

O grande marco político e emocional desta edição, contudo, é a criação da “Comenda Ancestral Céu do Talhado”, uma honraria que nasce para reconhecer o papel central das mulheres na manutenção e defesa dessas comunidades. Este ano, cinco lideranças femininas de diferentes regiões paraibanas serão homenageadas: Francisca Maria da Silva (Bidia), de Catolé do Rocha; Leonilda Coelho Tenório dos Santos (Paquinha), de Riachão do Bacamarte; Maria do Carmo da Silva (Maria Dudu), da comunidade anfitriã em Dona Inês; Maria José Rodrigues Pereira, de Serra Branca; e Rosilda de Fátima Soares da Silva, do Conde.

A entrega do prêmio, agendada para o encerramento do festival, carrega o peso e o simbolismo de Maria do Céu Ferreira da Silva. Conhecida como Céu das Louceiras, a antiga presidente da Associação das Louceiras Negras da Serra do Talhado, em Santa Luzia, aprendeu com a avó a arte milenar de modelar a terra e transformou o ofício em uma ferramenta de emancipação econômica e política para as mulheres de sua região.
A trajetória de Maria do Céu foi interrompida em 2013, aos 43 anos, vítima de um crime de feminicídio que chocou o estado. Sua morte trágica mobilizou movimentos sociais e familiares em uma longa busca por justiça, culminando na condenação do agressor anos mais tarde, e transformou seu nome em uma bandeira permanente de combate à violência de gênero.
Para que o legado de Céu e das demais homenageadas ganhe contornos definitivos na história paraibana, a Secretaria de Cultura do Estado (Secult-PB) já estuda transformar a comenda em um decreto estadual permanente, em debate no Conselho Estadual de Política Cultural. Enquanto as políticas públicas avançam na burocracia, o festival cumpre seu papel mais urgente: garantir que a voz, a arte e o trabalho das mulheres quilombolas continuem ocupando o espaço que lhes cabe por direito.






