Museu da Abolição em Recife reabre com mostras que questionam os vazios da liberdade

​Após hiato sem exibições, instituição retoma acervo físico para pautar racismo estrutural e herança colonial em novas exposições

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​O Sobrado da Madalena, que por anos manteve suas paredes silenciosas, voltou a assumir o papel de tensionar a história oficial do Brasil. Vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Museu da Abolição, no Recife, reabriu suas portas de forma integral. O retorno não se faz por meio de comemorações lineares, mas sim pelo desconforto de perguntas que o país costuma evitar. A instituição, que passou por reformas estruturais concluídas há quatro anos, agora utiliza a arte contemporânea e seu próprio acervo material para confrontar as promessas não cumpridas de 1888 e o destino de artefatos históricos.


No pavimento térreo, a exposição “Restituir o Possível” mergulha em um debate que atualmente mobiliza grandes museus globais: o destino de objetos deslocados de seus territórios de origem pelo colonialismo. Sob a curadoria de Isabelle de Oliveira Ferreira e Wellington Ricardo da Silva, integrantes do coletivo Mandume Cultural, a mostra propõe uma provocação conceitual. Em vez de focar na repatriação física imediata, a abordagem aposta em uma reparação simbólica. Máscaras, esculturas e insígnias de doze nações africanas e mais de vinte etnias ganham autonomia narrativa, desfazendo visões eurocêntricas que por séculos reduziram essas peças a meras categorias exóticas.


Ao subir as escadas do casarão histórico, o público depara-se com uma indagação de cunho político e social na mostra “Que herança você vai poder?”. O curador Alex de Jesus reuniu 31 obras de 29 artistas para traçar um panorama dividido em três tempos: passado, presente e futuro. O ponto de partida é o desamparo institucional que se seguiu à assinatura da Lei Áurea, quando mais de 700 mil pessoas escravizadas conquistaram a liberdade jurídica, mas foram privadas de terra, educação, trabalho e direitos básicos de cidadania.

As obras funcionam como ferramentas de denúncia e sobrevivência contra o apagamento histórico, culminando no questionamento sobre como gerir o espólio de desigualdade deixado pelo Estado brasileiro. Com acesso gratuito, o museu sinaliza que a preservação da memória afro-brasileira exige mais do que guardar arquivos; necessita de coragem para expor as feridas que ainda moldam as relações sociais do país.

Serviço:

O Museu da Abolição está localizado na Rua Benfica, 1150, no bairro da Madalena, Recife. As visitas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados, das 13h às 17h. A entrada é franca.

 

Com assessoria

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