Memória ancorada: novo museu no Recife Antigo resgata a identidade marítima da capital

​Espaço cultural inaugurado nesta sexta-feira reconecta o porto à malha urbana e traz acervo inédito com registros fotográficos que explicam a transformação geográfica da cidade.

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​O Recife nasceu da maré, do vaivém de mercadores e do abrigo natural de seus arrecifes. Apesar dessa simbiose secular, a capital pernambucana passou as últimas quatro décadas sem um espaço público dedicado exclusivamente a narrar a sua própria biografia portuária. Essa lacuna histórica começa a ser preenchida a partir desta sexta-feira, 12 de junho, com a inauguração do Museu do Porto do Recife, cravado no coração do bairro que concentra a maior densidade cultural da cidade.

​A abertura do equipamento integra um pacote de investimentos na infraestrutura local. Antes da solenidade de inauguração liderada pela governadora Raquel Lyra, foi assinada a ordem de serviço para a dragagem do canal do porto, intervenção técnica que ampliará a profundidade do cais e viabilizará a atracação de navios de grande porte. O evento teve a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, que se licenciou recentemente de suas funções ministeriais no governo federal para cumprir os prazos determinados pela legislação eleitoral.

O novo museu representa a vitória de um movimento que corria bastidores. Nos anos 1980, uma antiga sala de exposição instalada na zona portuária foi desativada, dispersando memórias e registros. Desde então, um grupo de servidores públicos manteve viva a articulação para reerguer o espaço. O engenheiro Denaldo Coelho, que preside a comissão responsável pela implantação, aponta que o objetivo é sintonizar o local com o circuito cultural vizinho, estabelecendo um diálogo direto com o Museu Militar do Forte do Brum.

​A proposta expográfica joga luz sobre o cotidiano de um período em que o porto operava de forma rudimentar. Até o século 18, as grandes embarcações não encostavam na terra; passageiros e cargas dependiam de pequenas embarcações e estruturas de ferro — conhecidas como gaiolas — para vencer o trecho final até o continente. Parte dessa transição urbana está eternizada no acervo da nova instituição, que detém a maior coleção de registros de Francisco Du Bocage (1860-1919), fotógrafo português que documentou a modernização da capital na virada do século 19 para o 20.

​As imagens de Du Bocage revelam o custo ambiental e urbano do progresso da época. Um dos destaques da mostra retrata, em 1912, o desmonte da linha férrea sobre o antigo istmo que unia Recife a Olinda. A destruição daquela faixa de terra para a ampliação do cais alterou de forma permanente as correntes marinhas e acelerou a erosão costeira, isolando o Recife Antigo como uma ilha e modificando a configuração territorial das duas cidades.

​Além da documentação visual, as salas do museu reúnem instrumentos de navegação e engenharia naval de eras passadas. O público poderá conferir de perto peças como astrolábios, sextantes, teodolitos, timões e um raro escafandro da década de 1950, ferramentas que moldaram a engenharia portuária do estado.

​Após a solenidade oficial e os ajustes técnicos de abertura, o Museu do Porto do Recife estará de portas abertas para o público geral a partir da próxima terça-feira, 16 de junho. As visitas podem ser feitas durante o horário comercial e a entrada é gratuita.

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