A diplomacia americana prepara uma alteração profunda no combate ao crime organizado transnacional. Em pronunciamento nesta quinta-feira (28), o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que o Departamento de Estado iniciará os trâmites para classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras. A medida marca um endurecimento sem precedentes na postura dos Estados Unidos diante da influência desses grupos, que deixam de ser tratados apenas como entidades de tráfico de drogas para serem encarados como ameaças diretas à segurança nacional norte-americana.
A decisão de Washington reflete um diagnóstico de que a capilaridade dessas facções extrapolou as fronteiras brasileiras, afetando a estabilidade e a integridade de rotas logísticas vitais para o comércio e a segurança na região. Ao rotular o PCC e o Comando Vermelho desta forma, o governo dos Estados Unidos viabiliza o uso de ferramentas jurídicas e financeiras mais agressivas, permitindo o congelamento de ativos, a proibição de transações e a imposição de sanções severas a qualquer indivíduo ou empresa que ofereça apoio material a esses grupos.
Analistas internacionais observam que este movimento busca isolar financeiramente as lideranças das facções, dificultando o movimento de recursos que hoje transitam por complexas estruturas de lavagem de dinheiro em diversos países. A estratégia do Departamento de Estado visa também aumentar a pressão sobre governos parceiros na América Latina para que adotem protocolos de cooperação mais rígidos, focados em desmantelar a infraestrutura financeira que sustenta o poder bélico e político dessas organizações. A movimentação de Rubio sinaliza que o tema deixará de ser tratado exclusivamente por agências de aplicação da lei e passará a ocupar um patamar de prioridade na agenda política de alto nível da Casa Branca.
Em 12 de maio deste ano, o governo federal lançou o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, um esforço orçado em R$ 11,1 bilhões que busca desmantelar as estruturas econômicas e operacionais desses grupos. A estratégia brasileira diverge da abordagem americana ao priorizar uma atuação sistêmica e integrada entre União, estados e municípios, focada em alvos que vão além da ponta armada das facções.
O plano brasileiro está estruturado em quatro eixos fundamentais. O primeiro, a asfixia financeira, visa rastrear e bloquear os fluxos de lavagem de dinheiro, atacando o patrimônio que sustenta as atividades criminosas. O segundo eixo concentra-se no fortalecimento da segurança dentro dos presídios, visando interromper o comando de crimes exercido por lideranças de dentro das celas. Os outros dois pilares buscam a qualificação técnica das polícias na investigação de homicídios e o combate ostensivo ao tráfico de armas, munições e explosivos que abastecem o poder de fogo dessas organizações.
Nos bastidores da diplomacia, o governo brasileiro demonstrou resistência à medida americana. A avaliação em Brasília é que a designação como grupo terrorista pode fragilizar a soberania nacional, criando aberturas para uma ingerência externa desnecessária (?). O Itamaraty tem buscado reforçar a cooperação regional por meio de acordos bilaterais e estratégias conjuntas no âmbito do Mercosul, sob a premissa de que o enfrentamento ao crime organizado deve ser conduzido respeitando as autonomias nacionais e os protocolos de segurança pública já em implementação.
Para a cúpula da segurança brasileira, o foco atual reside em consolidar as Ficcos (Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado) e instalar, até setembro, comitês específicos para a recuperação de ativos e investigação financeira. A aposta do Palácio do Planalto é que o estrangulamento da base econômica das facções, combinado com uma política prisional mais rígida, traga resultados mais eficazes do que a criminalização internacional dos grupos, vista como uma medida que pode elevar a volatilidade das operações criminosas no país.





