O hábito de deslizar o dedo por uma superfície de vidro virou quase um gesto reflexo no cotidiano familiar. Em um tempo no qual o silêncio infantil costuma ser comprado a custa de vídeos em loop e algoritmos sedutores, o Recife Antigo abre espaço para uma pausa necessária. A partir das 17 horas desta sexta-feira, a Galeria Raiz transforma a relação das crianças com os dispositivos móveis em matéria-prima para a arte.
Localizado no número 71 da Rua da Moeda, o espaço apresenta a exposição “Telas Roubam Infâncias”. O projeto reúne obras de 28 artistas visuais pernambucanos e de outras regiões do país, entre eles nomes como Clériston, Pedro Lapa, Ana Maria Veras e Murilo Maia, em um apanhado que varia entre pinturas, esculturas e fotografias. A visitação segue até o dia 20 de setembro, sempre de quarta-feira a domingo, das 14h às 17h, com acesso gratuito.
A proposta passa longe do pânico moral ou da simples condenação do avanço tecnológico. Em vez de apontar o celular como um vilão absoluto, os trabalhos buscam expor a perda gradual de terrenos fundamentais do desenvolvimento humano: a brincadeira desestruturada, o tédio criativo, a invenção do imaginário e o contato físico com o ambiente ao redor. Ao traduzir dados sobre a hiperconexão em formas e cores, a mostra tira a discussão dos manuais de pediatria e das teses acadêmicas para colocá-la na altura dos olhos de quem vive o problema no dia a dia.
A presença maciça da tecnologia na rotina familiar já faz parte das preocupações centrais da Sociedade Brasileira de Pediatria, que recomenda limites rígidos de tempo diante das telas e alerta para o impacto do isolamento digital no desenvolvimento motor e socioemocional. Na Galeria Raiz, essa provocação ganha contornos estéticos. O visitante é convidado a observar como a fascinação pela luz azul muitas vezes substitui a exploração do espaço e a construção de laços afetivos dentro de casa.
Para pais, professores e frequentadores do centro histórico, a visita funciona como um espelho de costumes. Ao conectar comportamento, educação e linguagem artística, a iniciativa propõe um respiro no ritmo acelerado da vida conectada, lembrando que existe um universo inteiro de descobertas esperando pelas crianças do outro lado do visor.
Com assessoria





