Chuva, erosão e aviso ignorado: o alerta que a falésia de Pipa insiste em dar

​Novo desabamento na Praia do Centro reacende o receio de tragédias no litoral potiguar e expõe os limites da convivência entre o turismo e a força da natureza.

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​A terra encharcada cedeu antes que o sol despontasse na Praia do Centro. Por volta das cinco da manhã da quarta-feira, a estrutura avermelhada que emoldura uma das enseadas mais famosas do Rio Grande do Norte voltou a ruir. Foram dezenas de toneladas de sedimento e rocha lançadas sobre a areia de Pipa após 48 horas de precipitação ininterrupta. A maré alta e o acumulado de água agiram juntos, minando a base do paredão e fazendo despencar um bloco extenso bem ao lado da área do cemitério local, a poucos metros do ponto exato onde uma família inteira perdeu a vida em 2020.

Desta vez, o relógio jogou a favor. O horário de pouca movimentação evitou vítimas, mas a repetição do cenário escancara uma vulnerabilidade estrutural que o turismo tenta ignorar. Este já é o terceiro colapso registrado na região apenas nos primeiros sete meses do ano. Em abril, a areia acumulada nas encostas da vizinha Praia do Madeiro invadiu e sotergou quatro barracas. Meses antes, em setembro do ano passado, a mesma praia assistiu a outro desmoronamento que deixou dois feridos e estruturas destruídas.

 

Quem vive do movimento das marés conhece a rotina de perigo melhor do que qualquer mapa de risco. Trabalhadores e guias locais mantêm uma vigilância informal, repetindo avisos aos visitantes que insistem em buscar a sombra ou a foto perfeita ao pé das encostas. O problema se agrava quando o mar avança: na maré cheia, a faixa de areia encolhe, empurrando os pedestres justamente para a zona de impacto das pedras. Se a parede de terra estiver encharcada pela chuva recente, a margem de segurança simplesmente deixa de existir.

A resposta pública segue o roteiro habitual: a Defesa Civil isolou a faixa de areia atingida e a prefeitura informou que mantém o monitoramento constante das áreas de maior instabilidade. No entanto, a fita zebrada e as placas de aviso parecem insuficientes diante do desgaste contínuo provocado pelo clima e pela ocupação do solo na orla de Tibau do Sul. Entre o apelo visual do litoral potiguar e a instabilidade natural de suas barreiras, Pipa segue equilibrando sua rotina econômica sobre um terreno que continua dando sinais claros de esgotamento.

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