A fruta que sai do solo irrigado de Petrolina traz consigo uma matemática rigorosa. Em um cenário em que barreiras alfandegárias e exigências sanitárias podem fechar fronteiras da noite para o dia, a resposta dos agricultores do Vale do São Francisco não tem sido o recuo, mas a adaptação técnica. A Cooperativa de Produtores Exportadores do Vale do São Francisco atua agora em um projeto focado em adequar suas propriedades aos mais exigentes protocolos de qualidade e sustentabilidade do planeta.
O movimento ocorre em parceria com o programa Conexões Corporativas, do Sebrae Pernambuco. O objetivo é preparar 21 propriedades rurais para a conquista de selos internacionais como SMETA, GlobalG.A.P. e GRASP. Mais do que meras siglas, essas certificações funcionam como passaportes comerciais: atestam o respeito a direitos trabalhistas, garantem a rastreabilidade da produção e atestam que os resíduos químicos no fruto estão dentro dos limites permitidos pelos países importadores.
A iniciativa ganha contornos práticos com consultorias focadas em metrologia, análise de água e controle de resíduos. Para o mercado europeu, por exemplo, o cumprimento dessas diretrizes deixou de ser diferencial competitivo para se tornar pré-requisito de entrada nas prateleiras dos supermercados.
Fundada em 2004 por agricultores que buscavam escala para negociar diretamente com grandes compradores, a cooperativa reúne hoje cerca de 40 associados e uma área cultivada de aproximadamente 630 hectares. Juntos, esses produtores movimentam cerca de 22 mil toneladas de uva por ano, gerando um faturamento anual próximo a R$ 300 milhões.
Apesar da forte presença no exterior, fornecendo principalmente para Estados Unidos, Canadá e Europa, a maior parte do volume colhido abastece os supermercados brasileiros. Curiosamente, a demanda nacional está concentrada a milhares de quilômetros da origem: os estados do Sul e do Sudeste consomem até 80% das uvas sem semente produzidas pela cooperativa, enquanto o mercado nordestino absorve uma fatia menor do total.
Essa capacidade de equilibrar a distribuição entre o comércio interno e a exportação provou ser decisiva em momentos de tensão econômica exterior. Quando taxas e tarifas protecionistas subiram no mercado norte-americano no ano passado, os produtores redirecionaram o fluxo de navios para portos europeus e reforçaram as entregas no varejo nacional. A manobra evitou perdas e manteve a saúde financeira do negócio.
Com encerramento previsto para o início de 2027, o trabalho junto ao Sebrae busca blindar os negócios rurais contra novas incertezas econômicas. Ao padronizar os processos no campo e garantir auditorias rigorosas do plantio à embalagem, os viticultores de Petrolina asseguram que a produção do interior pernambucano continue a disputar espaço nos mercados mais disputados do planeta.





