Após meia década de negociações, ajustes técnicos e impasses burocráticos, a usina de dessalinização de Fortaleza finalmente começará a ser construída. A assinatura do termo que autoriza o início dos trabalhos, realizada nesta quinta-feira (16), marca o ponto de partida para uma das obras de infraestrutura hídrica mais aguardadas do Ceará, viabilizada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e o consórcio Águas de Fortaleza.
O caminho até a assinatura não foi simples. O planejamento original previa a entrega do empreendimento ainda em 2023, mas o cronograma foi sucessivamente adiado. O principal ponto de fricção envolveu as operadoras de telecomunicações, temerosas de que a estrutura física da usina pudesse danificar os cabos submarinos de fibra óptica instalados na Praia do Futuro — responsáveis por grande parte da conexão de internet do Brasil com o mundo. O impasse só foi pacificado em julho de 2024, quando se pactuou o deslocamento da planta de captação de água para uma distância segura de 550 metros das estruturas de dados.
Superada a questão dos cabos, o projeto ainda enfrentou lentidão ao longo de 2025 devido à espera por avais da Marinha e licenças ambientais específicas para drenagem. Já no início de 2026, o último obstáculo foi a liberação para a construção de uma nova arena esportiva no bairro, uma contrapartida social exigida porque a usina ocupará o terreno de um equipamento de lazer existente.
Do ponto de vista financeiro, o orçamento histórico de R$ 526 milhões estipulado em 2020 passará por revisão. Segundo a Cagece, os valores reais de investimento serão recalculados à medida que as compras de insumos e as contratações de serviços avançarem, refletindo a inflação do período. No entanto, o contrato global da concessão, que tem prazo de 30 anos e envolve as empresas Marquise, PB Construções e Abegoa Água, permanece estimado em R$ 3,1 bilhões.
A tecnologia adotada para tornar a água potável será a osmose reversa, método que utiliza alta pressão para forçar a passagem da água salgada por membranas que retêm o sal. A planta industrial ocupará uma área de 2,4 hectares na Praia do Futuro e captará a água marinha por meio de tubulações profundas. O rejeito desse processo, uma salmoura com alta concentração salina, será devolvido ao oceano por um emissário de 700 metros de extensão, projetado para minimizar o impacto ambiental na fauna e flora costeiras.
Quando estiver operando em plena capacidade, no segundo semestre de 2028, a usina vai injetar mil litros de água tratada por segundo na rede de distribuição. Esse volume corresponde a 12% de todo o consumo do macrossistema de Fortaleza, beneficiando diretamente bairros como Aldeota, Papicu, Varjota, Vicente Pinzón e a própria Praia do Futuro. Indiretamente, a segurança hídrica se estenderá para a Região Metropolitana, uma vez que a nova fonte aliviará a demanda sobre os reservatórios do sistema Jaguaribe-Metropolitano, historicamente pressionados pelos ciclos de seca no estado.
O cronograma prevê 24 meses de obras. Nos próximos 30 a 60 dias, o consórcio focará na aquisição de tubulações de grande porte. As escavações para a adutora que conectará a usina aos reservatórios do Morro Santa Terezinha e da Praça da Imprensa devem começar em aproximadamente dois meses. Durante essa fase, os moradores da região devem se preparar para alterações no trânsito local e incômodos temporários causados por poeira e ruídos, que serão monitorados e mitigados em cooperação com os órgãos de trânsito e meio ambiente do município.





