Vidas interrompidas: Protesto com cruzes diante de hospital de São Luís (MA) cobra respostas por mortes de crianças

​Sob investigação de órgãos federais e estaduais, Hospital da Criança enfrenta denúncias de redução de equipes e contratação de médicos sem especialização após mudança de gestão.

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​O cenário amanheceu silencioso, mas carregado de indignação em frente ao Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís. Mais de uma centena de cruzes de madeira foram fincadas no gramado por familiares e conselheiros tutelares. O ato simboliza as 113 mortes registradas na unidade em 2025, das quais 101 ocorreram nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas, além de apontar para um agravamento estatístico recente. Documentos internos da investigação apontam que, apenas no primeiro semestre de 2026, 65 crianças faleceram no local, o que representaria uma alta de quase 40% em relação ao mesmo período do ano anterior.

As suspeitas ganharam força após outubro de 2025, quando o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) assumiu a gestão das UTIs por meio de um contrato com a prefeitura. Relatos de profissionais e inspeções de órgãos fiscalizadores sugerem que a transição resultou no enxugamento das escalas de trabalho. O planejamento técnico original tratava as três UTIs de forma isolada, mas o novo arranjo teria unificado os 29 leitos sob um mesmo cálculo de pessoal, reduzindo o contingente que antes era de 53 médicos. Segundo denúncias, alguns plantões passaram a operar com apenas três médicos, um para cada UTI.

Durante uma vistoria de emergência realizada nesta semana, a Defensoria Pública do Estado constatou a presença de profissionais sem especialização em pediatria e um contingente considerado insuficiente para a demanda. O defensor público Davi Veras destacou ainda que o Hospital Universitário Presidente Dutra chegou a suspender o envio de residentes devido à falta de condições adequadas na unidade. Paralelamente, o Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS) enviou técnicos de Brasília para analisar prontuários e contratos, buscando identificar se falhas assistenciais colocaram vidas em risco.

Por trás das estatísticas sob investigação, estão famílias devastadas pela perda precoce. Leyciane Barbosa, mãe de Otto, de nove meses, relata que precisou comprar insumos do próprio bolso, como sondas e anticonvulsivantes, antes de o filho falecer por choque séptico em janeiro de 2026. Ela sustenta que houve negligência e lentidão no atendimento do bebê, que convivia com microcefalia e paralisia cerebral.

O sofrimento também marcou a despedida dos gêmeos Bento e Bernardo, de apenas quatro meses, que morreram com um intervalo de 24 horas após darem entrada com bronquiolite.

​”É uma sensação horrível saber que levei meus filhos vivos. Eles olhavam para mim, e eu pensava que iam salvar a vida dos meus filhos, mas não.”

O pai das crianças registrou um boletim de ocorrência, e a Polícia Civil abriu um inquérito para apurar se houve falha no atendimento e apontar possíveis culpados.

Tanto a Prefeitura de São Luís quanto o IBMED refutam as acusações de desmonte. O diretor clínico da empresa, Paulo Bayma, afirma que o corpo clínico conta com mais de 20 médicos e atende integralmente às exigências da Anvisa. A administração municipal nega que ocorra desabastecimento generalizado de insumos, justificando que faltas pontuais de estoque são resolvidas de forma ágil com remanejamentos rápidos ou substituições por medicamentos equivalentes.

A gestão da capital também contesta a tese de aumento expressivo no número de óbitos apresentada nas denúncias ao Ministério Público, sustentando que a variação de mortes entre 2024 e 2025 foi de apenas 4,5%. Além disso, ressalta que o Hospital da Criança funciona como um polo regional de alta complexidade, realizando cerca de 10 mil atendimentos mensais, sendo que 71% dos internados são oriundos de municípios do interior do Maranhão. A prefeitura garantiu estar colaborando com a auditoria federal e ressaltou que o contrato com o IBMED foi validado e mantido pelo Tribunal de Contas do Estado.

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