O preço esquecido da liberdade: as poupanças da escravidão retidas sob a guarda do Estado

​Investigação inédita do Ministério Público Federal busca o paradeiro de depósitos do século XIX pertencentes a trabalhadores escravizados e abre caminho para reparações financeiras de herdeiros

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​Na segunda metade do século XIX, uma jovem lavadeira de 27 anos chamada Lydia, identificada formalmente como “escrava de Maria Carlota Fortuna”, caminhava pelas ruas de paralelepípedos da antiga Rua da Saúde, região hoje conhecida como Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro. Lydia não carregava apenas roupas; carregava o plano de comprar a própria liberdade. Para isso, depositava moedas de réis em uma conta poupança recém-criada na Caixa Econômica Federal.

 

O registro financeiro de Lydia é um dos 158 documentos históricos pertencentes a homens e mulheres escravizados que foram recentemente localizados nos arquivos da Caixa. A descoberta impulsionou uma rigorosa investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro. O objetivo do inquérito civil é rastrear o destino exato desses fundos depositados e apurar se os valores foram indevidamente retidos ou absorvidos pelo patrimônio da instituição bancária após a abolição da escravidão, em 1888.

A existência desse patrimônio esquecido é resultado direto de uma contradição do Brasil Imperial. Em 1871, a promulgação da Lei do Ventre Livre oficializou o direito de as pessoas escravizadas acumularem recursos próprios, o chamado “pecúlio”. Majoritariamente, esses poupadores eram trabalhadores urbanos, conhecidos historicamente como “escravos de ganho”. Eles exerciam atividades remuneradas de comércio ou serviços nas ruas das grandes cidades e, mediante o repasse de uma cota fixa a seus senhores, podiam guardar as sobras financeiras em contas oficiais. O principal e, por vezes, único propósito desses depósitos era a obtenção da carta de alforria.

 

Com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, a escravidão foi formalmente extinta no país. Contudo, a prometida emancipação jurídica não veio acompanhada de políticas de integração social ou de devolução de ativos financeiros. Historiadores e procuradores do MPF apontam que a autonomia conquistada no papel não foi amplamente comunicada aos antigos poupadores pelo Estado brasileiro ou pelo próprio banco público.

Como resultado, dezenas de cadernetas de poupança deixaram de ser movimentadas, permanecendo congeladas e intocadas nos cofres da Caixa Econômica ao longo de quase um século e meio. O silêncio institucional sobre esse montante gerou denúncias históricas por parte de movimentos sociais, sob a suspeita de que tenha ocorrido uma apropriação indébita sistemática de recursos que pertenciam por direito a ex-escravizados e seus descendentes.

O procurador da República responsável pelo caso ressalta que o avanço temporal das décadas não diminui o dever do Estado de esclarecer o ocorrido. A investigação foca na apuração de responsabilidade institucional, exigindo que a Caixa apresente metodologias detalhadas de busca em seu acervo e identifique todas as contas de pessoas negras registradas até o final do século XIX, uma tarefa complexa, visto que no período republicano os registros frequentemente ocultavam informações sobre cor ou origem étnica.

O Arquivo Nacional deu início a tratativas técnicas avançadas com a Caixa para viabilizar a digitalização integral dos livros de conta e registros financeiros remanescentes. Além de preservar o papel físico contra a deterioração do tempo, a medida visa abrir esses dados para consulta pública e pesquisas acadêmicas de forma transparente, permitindo que a sociedade reescreva capítulos essenciais de sua história econômica e trabalhista.

​A elucidação desse caso pode abrir duas frentes jurídicas de reparação material. A primeira diz respeito a ações de interesse difuso e coletivo, em que a instituição bancária poderá ser condenada a pagar indenizações milionárias voltadas a fundos de combate ao racismo e fomento da igualdade racial. A segunda se refere à busca direta por herdeiros.

Especialistas apontam que, se for possível rastrear a árvore genealógica de correntistas históricos como Lydia, descendentes diretos poderão reivindicar a restituição dos saldos devidamente corrigidos. Embora os cálculos de inflação e conversão de moedas do Império para o Real guardem alta complexidade, o valor de resgate de uma liberdade individual na época, estimado em cerca de 300 mil reais contemporâneos por conta, sinaliza o tamanho do débito histórico e econômico que o país ainda precisa enfrentar.

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