Rombo de R$ 7,6 bilhões: Como parentesco e dinheiro vivo ergueram império clandestino de postos no Rio

​Sexta fase da Operação Unha e Carne revela que lavagem de dinheiro operava à margem do sistema bancário com blindagem de policiais civis

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​O cotidiano de quem abastece na Região Metropolitana do Rio de Janeiro esconde um modelo de negócios desenhado para escapar do radar das autoridades fiscais. Sob a aparente normalidade de dezenas de postos de combustíveis, uma estrutura societária movimentou R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos. O caso veio à tona com os desdobramentos da sexta fase da Operação Unha e Carne, conduzida pela Polícia Federal, que detalha como vínculos de casamento e parentesco serviram de fachada para um esquema bilionário de lavagem de dinheiro.

​No papel, o controle de um conglomerado que soma pelo menos 80 empresas, entre estabelecimentos ativos e firmas inativas, pertencia a Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira. Na prática, os relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que as duas atuavam para ocultar os verdadeiros beneficiários do negócio: seus respectivos maridos, os inspetores da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como “Pablo Russo”, e José Carlos Alves. Ambos possuem conexões políticas e institucionais que alcançam o ex-secretário de polícia civil, Marcus Amim, e o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, também incluídos no rol de alvos das investigações.

​A arquitetura do negócio criava um abismo entre a realidade financeira declarada e o padrão de vida dos envolvidos. Enquanto Pablo Russo exercia suas funções na 81ª DP (Itaipu) com um vencimento líquido regular de R$ 9 mil, as contas associadas à sua família administravam somas astronômicas. Para estruturar essa transição entre o serviço público e a atividade empresarial oculta, o grupo contava com a atuação técnica do advogado Renivaldo Vieira Granja Junior. Identificado pela Polícia Federal como o administrador do núcleo familiar, Renivaldo assumia formalmente a gestão jurídica e burocrática das empresas, permitindo a expansão territorial da rede.

​A divisão do trabalho seguia uma lógica clara de proteção e anonimato. Os agentes públicos forneciam a influência e o trânsito nos bastidores da segurança; as esposas emprestavam nomes e CPFs para os registros nas juntas comerciais; e o advogado conduzia os trâmites corporativos diários. O círculo de confiança se estendia a Vitor Correa Pinho, irmão de Luisi, que figurava como sócio em postos específicos e em frentes de pulverização de ativos, a exemplo da distribuidora Purogás.

​A preferência pelo anonimato fiscal ditava as regras de atendimento ao consumidor. No posto J R Combustíveis Ltda., localizado em Icaraí, área nobre de Niterói, cartões de crédito, débito ou transferências via Pix são proibidos. A gerência adota o dinheiro em espécie como única forma de pagamento válida, justificando a restrição aos clientes como uma suposta falha técnica temporária no sistema.

​A mesma exigência estendia-se à loja de conveniência anexa, de propriedade do ex-secretário Marcus Amim. O estabelecimento traz em seu quadro societário, além de Luisi e Luana, Lylyane Maia Correira Costa, apontada pelas investigações como mais um nome utilizado para fins de ocultação patrimonial. Para a Polícia Federal, a recusa aos meios eletrônicos de pagamento constitui uma estratégia planejada para gerar grandes volumes de recursos em espécie, inviabilizando o rastreamento da origem dos valores.

​A dimensão física desse fluxo de caixa restrito ao papel-moeda ficou evidente durante as buscas judiciais. Na sede da Adm Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina Ltda., uma consultoria de gestão no Centro de Niterói aberta por Luana Oliveira com capital social declarado de apenas R$ 10 mil, os policiais federais apreenderam R$ 800 mil guardados em espécie. O volume apreendido materializa o abismo entre o faturamento real do grupo e os mecanismos tradicionais de controle financeiro do Estado.

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