O subsolo da região do Cariri, no sul do Ceará, guarda uma riqueza invisível que sustentou o crescimento de cidades como Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha: o Aquífero Missão Velha. Contudo, os relatórios técnicos da Secretaria dos Recursos Hídricos do Estado (SRH-CE) já acenavam para um teto preocupante, mostrando que as reservas subterrâneas operavam no limite. Em uma das áreas mais povoadas e economicamente ativas do interior nordestino, a dependência exclusiva da chuva ou de poços profundos se tornou um risco calculado que o tempo tratou de esgotar.
A resposta para esse impasse avança por gravidade e engenharia ao longo de 145 quilômetros de canais, túneis e sifões. O Cinturão das Águas do Ceará (CAC) entra em sua fase derradeira de construção, registrando 92% de execução física e com a meta de entrega fixada para o decorrer deste ano. Trata-se do maior empreendimento de transferência de água estruturado por um único estado brasileiro, desenhado para funcionar como uma espécie de linha tronco que capta a vazão do Rio São Francisco e a distribui por 12 bacias hidrográficas cearenses.
A engrenagem do sistema começa na Barragem de Jati, ponto de recepção das águas transpostas pelo Eixo Norte do projeto federal. Dali, o canal corre em direção à nascente do Rio Cariús, em Nova Olinda. Na prática, a infraestrutura cria um caminho artificial que injeta segurança hídrica no interior. À medida que avança, o fluxo também alimenta os rios Salgado e Jaguaribe, correndo naturalmente até os dois maiores reservatórios do estado, os açudes Castanhão e Orós. Essa conexão impede que o benefício fique restrito ao sul do mapa, estabilizando o atendimento urbano e rural de mais de 5 milhões de pessoas de forma integrada.
O desenho financeiro e operacional do projeto demandou R$ 2,08 bilhões, divididos entre o tesouro estadual e o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, dentro do catálogo de investimentos federais do Novo PAC. O canteiro de obras foi fateado em cinco lotes para viabilizar a execução. Atualmente, os trechos 1, 2 e 5 estão finalizados, o lote 3 atinge a marca de 86% de conclusão e o lote 4 representa a última fronteira de escavação entre o Crato e Nova Olinda. No primeiro trimestre, a liberação de novos 15 quilômetros de canais permitiu que a água testasse as estruturas antes mesmo da inauguração oficial.
Quando o complexo estiver operando em capacidade plena, supervisionado pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), a vazão projetada alcançará 30 metros cúbicos por segundo. Para além dos números de engenharia, o impacto imediato se reflete no cotidiano de 24 municípios diretamente afetados. A transição de um modelo de abastecimento vulnerável e dependente de medidas emergenciais para uma fonte perene mitiga o colapso urbano e dá fôlego à agricultura irrigada local, que passa a contar com um calendário de produção desvinculado da irregularidade das secas.





