Três vidas, um século e uma mala de costura: as irmãs sergipanas que conquistaram o mundo pela longevidade

​Com mais de 300 anos somados, Levita, Zoraide e Zulina saíram do interior do Nordeste para o Rio de Janeiro e transformaram o apoio mútuo em um recorde global de sobrevivência e afeto

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​Em uma época na qual o mundo tenta decifrar os segredos da longevidade em laboratórios e dietas restritas, a resposta para uma vida centenária pode estar guardada em um antigo pacto de solidariedade familiar. Três irmãs nascidas no interior de Sergipe provam que o tempo parece respeitar quem decide caminhar junto. Levita, de 109 anos, Zoraide, de 104, e Zulina, de 103, foram oficialmente reconhecidas pela organização internacional LongeviQuest como o trio de irmãs vivas mais velhas do planeta, acumulando uma bagagem conjunta que ultrapassa os 315 anos de história.

​A trajetória do trio começou em Cedro de São João, uma pequena cidade sergipana. Diante das escassas perspectivas locais e das dificuldades de uma família numerosa de oito irmãos, elas arrumaram as malas entre as décadas de 1940 e 1950. O destino foi o Rio de Janeiro, metrópole que prometia o futuro que o Nordeste daquele período não conseguia oferecer. Na bagagem, traziam o conhecimento do artesanato, da costura e uma determinação silenciosa que definiria os anos seguintes.

​O desembarque na capital fluminense colocou as irmãs diante de uma realidade dura para mulheres que tentavam chefiar seus lares no meio do século passado. Em vez de se isolarem diante das barreiras sociais e dos casamentos que se desfaziam, elas criaram um sistema próprio de cooperação. Enquanto uma saía para trabalhar ou buscar qualificação profissional, as outras assumiam os cuidados com a casa e com as crianças. Essa divisão informal de tarefas permitiu que os filhos crescessem protegidos e tivessem acesso a oportunidades que as mães não tiveram.

​Cada uma encontrou sua própria maneira de se integrar à nova rotina carioca. Levita, a mais velha, uniu o talento com o crochê ao trabalho nos bastidores da televisão, atuando por mais de uma década na Rede Globo como figurante e participante de plateias de programas de humor. Zoraide escolheu o caminho dos livros: formou-se na tradicional Escola de Enfermagem Anna Nery e dividiu o tempo entre os plantões nos hospitais, as salas de aula como professora e a criação de cinco filhos. Já a caçula, Zulina, chegou ao Rio apenas com uma mala cheia de bordados para vender nas ruas e, com o fruto desse comércio ambulante, garantiu que seus seis filhos conquistassem o diploma universitário.

​Hoje, vivendo na Zona Norte do Rio de Janeiro, as três colhem os frutos da estrutura que ergueram. Embora Levita enfrente as limitações de estar acamada, mantém a mente ativa através da leitura. Zulina, por sua vez, preserva uma rotina movimentada na cozinha e exibe a mesma energia dos tempos em que negociava seus tecidos pelas calçadas cariocas. A descendência do trio agora inclui médicos, advogados e uma extensa rede de netos e bisnetos.

O título concedido pela organização especializada em superlongevidade apenas oficializou o que os familiares já sabiam dentro de casa. Mais do que a contagem cronológica dos anos ou um registro em livros de recordes, a permanência de Levita, Zoraide e Zulina no mundo é o resultado prático de uma convivência baseada no amparo mútuo e na teimosia em seguir adiante.

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