Se o torcedor brasileiro achou que a estreia na Copa do Mundo de 2026 seria uma daquelas caminhadas triunfantes e ensolaradas rumo ao hexa, o choque de realidade veio com sotaque árabe e tempero de Nova Jersey. O empate em 1 a 1 contra Marrocos foi um monumento à nossa eterna capacidade de transformar o favoritismo em um thriller de suspense psicológico de quinta categoria. Dizem que Carlo Ancelotti aceitou o cargo para trazer a refinada estabilidade europeia ao caos tropical, mas nos primeiros quinze minutos de jogo o que se viu foi o mais puro suco de desorganização sul-americana. Marrocos não tomou conhecimento do peso da camisa — até porque tecidos modernos são bem leves — e aplicou uma blitz que fez a nossa zaga parecer turistas perdidos no metrô de Nova York sem saber usar o bilhete.
Aos 20 minutos, Brahim Díaz achou uma avenida tão larga na defesa brasileira que caberia o ego de toda a comissão técnica. O passe primoroso encontrou Ismael Saibari livre de qualquer obrigação social ou defensiva e, com a frieza de quem pede um café, ele deu uma cavadinha por cima de Alisson. Ali, o drama nacional foi oficialmente instaurado. O Brasil sentiu o golpe como um boxeador que descobre, no meio do ringue, que esqueceu o protetor bucal. Como já virou uma espécie de tradição cultural regulamentada por lei, quando o coletivo de bilhões falha, resta rezar para que a individualidade resolva o problema gerado pela própria equipe.
Aos 31 minutos, Vinícius Júnior decidiu que já tinha assistido a vexames o suficiente por uma noite. Recebeu pela esquerda, tabelou com Bruno Guimarães e disparou um chute com ódio, força e a urgência de quem precisa salvar o fim de semana de duzentos milhões de técnicos amadores. Foi um belo gol que garantiu o empate e nos poupou, temporariamente, de debates apocalípticos nos programas esportivos de domingo de manhã. No segundo tempo, Ancelotti apelou para o banco de reservas com o desespero de quem tenta consertar um motor com fita isolante, promovendo as entradas de Fabinho, Danilo, Matheus Cunha e Luiz Henrique. A equipe até esboçou uma organização e parou de errar passes de dois metros, mas a criatividade continuou guardada na mala de alguém que ficou retida na alfândega do aeroporto, salvo por um lampejo de Lucas Paquetá, que aplicou um chapéu e um voleio espetacular parado pelo goleiro Bono.
O apito final trouxe um empate com sabor de purgatório. Não chega a ser um desastre completo, mas serve para lembrar que o Ranking da FIFA não entra em campo e que a arrogância pré-Copa costuma cobrar o seu preço em dólar. Agora, a Seleção Brasileira vai pressionada para o jogo contra o Haiti, na Filadélfia. Trata-se do cenário ideal para o Brasil recuperar a dignidade ou, caso o roteiro atual se mantenha, para testar a saúde cardíaca da nação antes mesmo das oitavas de final. Bem-vindos à Copa do Mundo de 2026: onde o favoritismo é uma ilusão e o sofrimento é uma garantia contratual.





