A medicina que brota da terra, cultivada pelas mãos de mulheres e homens que interpretam os sinais do Cerrado, conquistou o posto de patrimônio cultural do Brasil. A decisão, tomada na última quarta-feira (10) pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, inscreveu o Ofício de Raizeiras e Raizeiros no Livro de Registro dos Saberes do Iphan. O ato oficializa o que as comunidades já praticam há séculos: a identificação, coleta e manipulação de plantas medicinais não constituem apenas um cuidado com a saúde, mas a salvaguarda de uma memória coletiva que define identidades regionais.
O registro ganha contornos de urgência política ao confrontar um histórico de marginalização que, por vezes, confunde o saber popular com a ilegalidade. Ao longo das últimas décadas, detentoras desse conhecimento enfrentaram abordagens policiais e tentativas de criminalização de suas farmacinhas caseiras, espaços que suprem lacunas assistenciais onde o Estado é ausente. A trajetória narrada no dossiê de reconhecimento, conduzido pela advogada quilombola Vercilene Francisco Dias, expõe como a perseguição a esse modo de vida camufla o apagamento de saberes tradicionais, um processo que coloca em risco não apenas as técnicas de cura, mas a própria autonomia dos povos do campo, da floresta e das periferias.
A técnica dessas comunidades supera a simples aplicação fitoterápica. O aprendizado ocorre durante caminhadas pelas veredas e matas, onde o vínculo estabelecido com a vegetação impõe um código de ética rigoroso: o respeito ao tempo de regeneração da espécie. Para essas lideranças, a preservação do Cerrado não é um pauta de gabinete, mas uma condição direta para a manutenção de suas práticas. Sem as árvores de jatobá ou as espécies como o barbatimão em seu habitat natural, a farmacopeia popular perde o suporte físico, transformando a degradação ambiental em uma perda cultural definitiva.
A inclusão dessa prática entre os bens protegidos pelo Estado brasileiro altera a balança de poder no debate sobre o patrimônio. Pela primeira vez, a chancela institucional reconhece que o valor desses conhecimentos reside exatamente na experiência vivida e na transmissão oral, distanciando-se de visões que privilegiam apenas o saber acadêmico. Ao elevar o ofício ao patamar de patrimônio imaterial, o país reconhece que a ciência contida nas garrafadas, xaropes e chás possui, além de eficácia, uma dimensão ética e espiritual que sustenta a sobrevivência de comunidades inteiras. A partir de agora, o ofício deixa de ser um saber invisibilizado para se tornar parte oficial da identidade nacional, exigindo políticas que assegurem tanto a integridade do bioma quanto a segurança jurídica dos mestres e mestras que seguem curando o território.





