Todo ser humano civilizado já passou pelo constrangimento de ser enquadrado em uma moldura, sob o comando de um indivíduo munido de uma câmera, que exige, com a autoridade de um general, que os presentes abandonem qualquer semblante de normalidade em prol de uma contração facial específica. A ordem é sempre a mesma: “digam xis”. Ou “queijo”, se o ambiente for mais cosmopolita. O resultado é quase invariavelmente uma expressão que flutua entre o entusiasmo forçado e um espasmo muscular contido.
A prática não é um privilégio de brasileiros ou falantes de inglês. O planeta parece ter entrado em um acordo tácito sobre a necessidade de fingir alegria através da fonética. Enquanto por aqui insistimos no “xis”, uma sílaba que, pela anatomia do riso, obriga o lábio a se esticar lateralmente, o restante do mundo se diverte em uma mistura caótica de gastronomia e biologia. Na Suécia, a ordem é “omelete”. Os alemães alternam entre “cheesecake” e “espaguete”, enquanto coreanos optam por “kimchi” e búlgaros, em um momento de desespero dietético, gritam “repolho”.
O segredo, se é que podemos chamar de inteligência algo tão superficial, reside na manipulação das vogais. A fonética é implacável: para pronunciar o “i” longo, presente em quase todas essas variantes, o ser humano é obrigado a tensionar os músculos zigomáticos. É uma armadilha mecânica. O fotógrafo não quer a sua felicidade genuína; ele quer o movimento mecânico que simula uma expressão de contentamento. É a engenharia aplicada ao rosto.
Além do benefício fisiológico de transformar qualquer cidadão comum em um boneco de ventríloquo sorridente, há a tática da estranheza. Dizer “repolho” ou “sagui” em um momento solene é, por definição, uma situação ridícula. A própria estupidez do comando quebra a tensão do momento, forçando um riso real, ou pelo menos um sorriso de deboche pela situação ser tão absurda quanto parece.
No final das contas, somos todos conduzidos por um truque linguístico barato. O objetivo fotográfico foi alcançado: os dentes estão à mostra, a boca está aberta em uma conformação que indica alegria, e a pose está garantida. Pouco importa que, um segundo após o clique, a face retorne à sua expressão original de tédio ou exaustão, enquanto o fotógrafo, satisfeito, prepara a próxima rodada de comandos arbitrários para registrar outra cena de felicidade fabricada sob medida.





