O dia em que tentaram curar o que não estava doente

​Um anúncio de jornal de 1987 revela como a fé e o desconhecimento se uniram em Copacabana para vender o impossível

Compartilhe o Post

​Olhar para trás, para o Brasil de 1987, é como folhear um álbum de fotografias de uma tia excêntrica que insiste em usar roupas que já não servem mais. Segundo o registro compartilhado no instagram, foi naquele fevereiro que o então emergente R.R. Soares decidiu vender, nas páginas de O Globo, a solução definitiva para algo que, na época, insistiam em tratar como uma falha de sistema: a homossexualidade. Entre orações e promessas, o serviço era oferecido na Galeria Alaska, em Copacabana.

​A escolha do local, por si só, carrega uma dose generosa de ironia geográfica, para não dizer uma coincidência digna de comédia. Enquanto buscavam exorcizar afetos no piso superior, o subsolo da mesma galeria e o Cinema Holliday fervilhavam como pontos de encontro clássicos da cultura LGBTQIA+ e da boemia carioca. Era como tentar secar o mar com um secador de cabelos enquanto, logo abaixo, a maré subia sem pedir licença.

​Naquele cenário de final de década, a medicina ainda engatinhava para fora de um conservadorismo institucionalizado, mantendo a orientação sexual sob a alcunha de desvio mental, rótulo que a Organização Mundial da Saúde só teria a decência de remover em 1990. Por aqui, o Conselho Federal de Psicologia só colocaria um ponto final na farra das chamadas terapias de conversão em 1999.

​Hoje, o recorte exposto pelo perfil do intagram historiaesquecida serve menos como um manual de conduta e muito mais como um lembrete do quão criativo o mercado da fé pode ser quando encontra um público disposto a comprar diagnósticos inexistentes. Resta aos arquivos a tarefa de preservar esses anúncios, que funcionam como cápsulas do tempo: registram que, embora a ciência tenha avançado, a insistência humana em padronizar o amor alheio é uma tradição que, infelizmente, teima em não se aposentar.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.